A vitória do antijornalismo
Na GloboNews, comentaristas se equilibram nas palavras para analisar a última pesquisa Quaest, que registrou queda de Lula depois da fabricação midiática do chamado caso Lulinha. Os mais consequentes limitam-se a dizer que os dois lados explicaram mal seus respectivos casos. Com isso, evitam comparar fatos de dimensões incomparáveis.
No caso de Fábio Luís, não apareceu, até agora, contrato com o poder público, ato de ofício, pagamento em troca de influência ou negócio concretizado graças à sua intervenção. No de Flávio Bolsonaro, há suspeitas sustentadas por mensagens, planilhas e transferências milionárias de Daniel Vorcaro para o filme destinado a glorificar Jair Bolsonaro. Investigar ambos é obrigação do jornalismo. Equipará-los, porém, é uma fraude editorial.
A mudança nas expectativas dos eleitores mostra que a fraude funcionou. É uma vitória do antijornalismo: não foi preciso demonstrar equivalência entre os casos; bastou repeti-la até que se transformasse em percepção pública.
O vácuo institucional
Não se deve, contudo, medir a crise apenas pelos parâmetros da mídia. A imprensa brasileira participou, direta ou indiretamente, de sucessivas rupturas políticas desde o fim do Estado Novo. A gravidade do momento atual se mede por algo ainda maior: o vácuo institucional deixado pelo desmonte dos freios, dos contrapesos e das referências comuns da República.
A megalomania de Daniel Vorcaro estava exposta. Ainda assim, a perspectiva de enriquecimento fácil, somada às alianças com o Centrão e à circulação do banqueiro pelas altas rodas de Brasília, contaminou instituições e poderes. Vorcaro converteu-se no amigo generoso, capaz de distribuir contratos de consultoria, viagens internacionais, patrocínios e verbas vultosas. Só faltava beijo na boca.
Do terremoto Master não escapam o Congresso, o Judiciário, setores evangélicos, a imprensa, o Ministério Público, a Advocacia-Geral da União e a Polícia Federal. Cada nova revelação ilumina uma parte da mesma ópera bufa: agentes públicos e privados aproximados pelo dinheiro, pela influência, por receio política e pela ausência de controles efetivos.
André Mendonça surge como personagem-síntese desse fim de ciclo. Em sua atuação se encontram alguns dos principais vícios contemporâneos do Supremo: personalização do poder, confusão entre autoridade pública e projeção privada, investigações conduzidas sob forte impacto político e desprezo pelos ritos que deveriam proteger a própria legitimidade da Corte. As acusações concretas ainda precisam ser apuradas; o dano institucional, contudo, já está à vista.
Depois da quartelada
E agora, José? Durante o século XX, as crises políticas brasileiras terminavam, quase sempre, diante da ameaça ou da consumação de uma quartelada. Para o bem da democracia, o governo Bolsonaro desmoralizou a fantasia da tutela militar. O impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, ambos impulsionados com participação decisiva de setores dos quartéis, levaram ao poder um grupo de militares que, por incapacidade política e administrativa, acabou terceirizando o governo ao Centrão.
A opção militar perdeu legitimidade. O problema é que nada sólido ocupou seu lugar. Restou uma República fragmentada, na qual corporações agem por conta própria, o Congresso captura o Orçamento, o mercado financeiro avança sobre o Estado, a imprensa fabrica equivalências e o Supremo tenta compensar o vazio político ampliando o próprio poder.
Lula como passo intermediário
Qual é a saída? Diante de uma candidatura de Flávio Bolsonaro que representa a continuidade da dissolução do Estado nacional, e de alternativas ainda incapazes de apresentar rumo consistente, a reeleição de Lula aparece como o caminho mais seguro para preservar a democracia. Mas seria apenas um passo intermediário — necessário, porém insuficiente.
O grande desalento político, agravado pelos escândalos, nasce do vazio de projetos de futuro. A população é convocada a escolher entre a barbárie e a contenção da barbárie, mas raramente lhe é apresentado um horizonte capaz de mobilizar esperanças, organizar interesses e dar sentido coletivo ao sacrifício cotidiano.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro representaria a falência de qualquer veleidade de projeto nacional. Uma vitória de Lula poderá abrir a reconstrução institucional, desde que o quarto mandato não se limite a administrar ruínas nem a celebrar uma coleção de “entregas”. Entregas são necessárias, mas não substituem direção histórica.
Reconstruir o futuro
A construção do futuro é processo mais sofisticado. Exige planos estruturados e factíveis, metas verificáveis, prioridades produtivas, instrumentos de financiamento e definição clara das novas oportunidades de investimento e trabalho.
Exige mostrar como terras raras, transição energética, bioeconomia, complexo industrial da saúde, soberania digital, infraestrutura, educação e ciência podem formar partes de um mesmo projeto. Exige também reconstruir instituições, conter a captura corporativa do Estado e devolver à política a capacidade de arbitrar interesses em nome de uma estratégia nacional.
O fim deste ciclo não virá apenas com a derrota eleitoral do bolsonarismo. Virá quando o país deixar de escolher apenas contra o desastre e voltar a escolher a favor de um futuro.
A reeleição de Lula pode fechar a porta da barbárie. Para abrir a porta seguinte, porém, será necessário muito mais: um governo com projeto, método, coragem e capacidade de devolver ao Brasil o direito de sonhar com o próprio destino.
Se ocorrer a tragédia política da eleição de Flávio Bolsonaro, agosto de 2026 será considerado o mês em que a imprensa brasileira conseguiu atingir seu objetivo, de destruir a democracia brasileira.