Haddad apresenta perícia que contesta versão da PM sobre motorista

O candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (coligação Desperta São Paulo), apresentou nesta segunda-feira (31) uma perícia que contesta a versão da Secretaria da Segurança Pública (SSP) sobre o episódio envolvendo seu motorista, Alessandro Caseri, na noite de 11 de agosto.

O episódio ocorreu depois que Caseri deixou Haddad em sua residência. Segundo o relato apresentado pela campanha, o motorista passou a ser acompanhado por uma viatura da Polícia Militar e, assustado, estacionou nas proximidades do Hotel Pullman, na Vila Mariana. A denúncia apontava uma perseguição e uma tentativa de intimidação.

Um parecer técnico de 25 páginas, elaborado por dois peritos judiciais contratados pela campanha, analisou imagens de câmeras de segurança de imóveis próximos ao hotel. Segundo o documento, três viaturas participaram da movimentação registrada naquela noite.

Um dos pontos considerados mais relevantes pela defesa é a identificação de uma viatura que teria permanecido parada nas proximidades do hotel por mais de 20 minutos. A campanha sustenta que o veículo ficou fora do campo de visão das câmeras utilizadas inicialmente pela Secretaria da Segurança Pública para sustentar sua versão dos fatos.

O que Haddad afirmou sobre o episódio

Ao defender o motorista, Haddad afirmou que se trata de um trabalhador e que continuará oferecendo apoio jurídico para que o caso seja esclarecido.

O candidato também contestou a interpretação do governo Tarcísio de Freitas de que a passagem da viatura pelo local teria sido apenas uma ocorrência rotineira de patrulhamento.

Segundo Haddad, as novas imagens analisadas pela perícia mostram que a viatura não simplesmente passou pelo local, como sustentava a versão oficial. Ela teria permanecido estacionada durante um período prolongado.

A campanha também afirma que duas viaturas da Força Tática foram identificadas nas novas imagens e que uma delas permaneceu no local por cerca de 20 minutos.

Motorista relatou medo e perseguição

Desde o início do episódio, a versão apresentada pelo motorista é de que ele percebeu a presença insistente de uma viatura depois de deixar Haddad.

Mensagens de WhatsApp obtidas pelo UOL registraram o relato feito por Caseri pouco depois do ocorrido. Ele afirmou ter sido seguido por uma viatura da PM e demonstrou preocupação com a situação.

A primeira versão divulgada pela campanha também relatava que policiais teriam se aproximado do veículo, acompanhado o motorista e, posteriormente, determinado que ele deixasse o local onde havia parado. A expressão “vaza” foi atribuída aos policiais pela defesa de Haddad.

Em entrevista concedida logo após o episódio, Haddad disse que o motorista estava abalado e que havia policiais armados com fuzis dentro da viatura. O candidato classificou o comportamento como diferente de uma abordagem policial convencional.

SSP apresentou versão diferente

A Secretaria da Segurança Pública, por sua vez, divulgou imagens que, segundo o governo paulista, não registram abordagem ou comportamento intimidatório.

Em uma das gravações divulgadas pela SSP, uma viatura passa lentamente pelo carro do motorista, que estava estacionado em frente ao hotel. Os policiais não descem do veículo e não aparece interação com o condutor. Pouco depois, o carro deixa o local.

A PM informou ainda ter analisado dezenas de câmeras de segurança e não ter encontrado, inicialmente, registros que confirmassem uma abordagem irregular. A investigação, entretanto, continuou diante das divergências entre os relatos e as imagens disponíveis.

É justamente nesse ponto que a perícia contratada pela campanha petista passou a ser utilizada para contestar a conclusão da SSP: as novas imagens analisadas pelos peritos apontariam a existência de outras viaturas e uma permanência prolongada de uma delas em uma posição que não aparecia nas imagens utilizadas pelo governo.

Ministério Público arquivou denúncia eleitoral, mas fez ressalva

Também nesta segunda-feira, o Ministério Público Eleitoral de São Paulo decidiu arquivar a denúncia apresentada pela campanha de Haddad por suposto abuso de poder político e de autoridade.

O arquivamento, porém, não significou uma validação da versão apresentada pelo governo estadual.

O procurador regional eleitoral Paulo Taubemblatt concluiu que não havia elementos suficientes para caracterizar crime eleitoral, mas considerou “inverossímil” a explicação oficial de que a movimentação das viaturas teria sido apenas uma coincidência decorrente do patrulhamento de rotina.

Para o procurador, o conjunto de circunstâncias e a cronologia dos acontecimentos enfraquecem a hipótese de uma atuação meramente casual das equipes policiais.

O caso, portanto, permanece com uma distinção importante: não houve, até o momento, comprovação de ilícito eleitoral, mas também não foi eliminada a controvérsia sobre o comportamento das viaturas e sobre o tratamento dispensado ao motorista de Haddad.

Caso segue sob investigação criminal

A apuração não terminou com o arquivamento eleitoral. O caso continua sendo investigado pela Polícia Civil, e os advogados da campanha afirmaram que apresentarão novos elementos e petições no inquérito.

A perícia passa a ocupar papel central nessa disputa de versões. De um lado, a SSP sustenta que as imagens disponíveis não registram abordagem ou intimidação. De outro, a defesa de Haddad afirma que uma análise mais ampla das câmeras revela três viaturas envolvidas na movimentação e uma delas permanecendo por mais de 20 minutos nas proximidades do motorista.

O episódio ganhou dimensão política porque ocorreu durante a campanha para o governo paulista e envolveu diretamente o principal adversário do governador Tarcísio de Freitas. Por isso, além de esclarecer o que efetivamente ocorreu naquela noite, a investigação terá de estabelecer por que as viaturas estavam acompanhando aquela região, quais equipes participaram da ação e se houve alguma ordem ou procedimento específico relacionado ao veículo do motorista de Haddad.

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