no Substack: Amanhã não existe ainda
Trump aposta no imperialismo à moda antiga, escancarado. O Brasil precisa entender isso.
Trump anunciou triunfalmente que os Estados Unidos estão tomando conta do petróleo da Venezuela. Embora os detalhes ainda permaneçam obscuros, parece que o governo venezuelano aceitou o plano de constituição de uma empresa para explorar boa parte das reservas do país, cujo controle fica nas mãos das petroleiras privadas estadunidenses.
É o imperialismo a moda antiga. O paralelo mais óbvio é com o golpe orquestrado pela CIA que derrubou o governo nacionalista de Mossadegh, no Irã, em 1953. A sangrenta ditadura do xá Reza Pahlavi, então inaugurada, tinha como propósito garantir que as empresas ocidentais explorassem o petróleo iraniano.
Com o anúncio, Trump pretende dar ao eleitorado, insatisfeito com a alta dos combustíveis ocasionada por sua guerra insensata, exatamente contra o Irã, a esperança de uma redução de preços no futuro próximo. Não é certo de que vá alcançar esse resultado.
Para o Brasil, fica claro o recado. O agente laranja está mesmo patrocinando uma volta aos métodos mais escancarados do passado recente. Serão tensas não só as semanas que faltam para a eleição, quando podemos esperar um crescendo das manobras de intimidação e de manipulação alinhadas com Washington (leia-se, no front digital), mas também ao longo do próximo mandato do presidente Lula.
Temos Forças Armadas não apenas golpistas, mas submissas ao imperialismo. Neste campo, o governo Lula fez muito pouco. Mesmo com todas as ações de Washington, militares brasileiros continuam sendo treinados por, participando de manobras conjuntas com e transferindo informações para seus equivalentes estadunidenses. O ministro civil da Defesa, José Múcio, não apenas passa pano para generais implicados nas tramas bolsonaristas como declarou recentemente que, caso os EUA decidam intervir no Brasil, seu papel será abrir as portas.

Quanto às plataformas sociodigitais, a batalha também é dura. Os controles instituídos sofrem enorme resistência das empresas. Ainda assim, são insuficientes. Mais do que apenas controles, é necessário estabelecer uma política para reduzir a dependência do usuário brasileiro em relação ao sistema FAMGA (Facebook, Apple, Microsoft, Google e Amazon).
Num país em que tantos órgãos públicos, incluindo universidades, entregam alegremente a gestão de seus dados para alguma dessas empresas e em que a administração federal prefere pagar milhões em royalties, em vez de investir em software livre, é necessária uma mudança de mentalidade. Não se trata apenas de dinheiro, é também questão de soberania e de defesa nacional.
Duas observações laterais:
(1) O acordo mostra o governo de Delcy Rodríguez de joelhos diante de Trump.
Quando ocorreu o sequestro de Maduro, houve vozes à esquerda que acusavam de “traição” qualquer um que dizia que havia indícios de colaboração de setores da ditadura venezuelana com os Estados Unidos. Eu mesmo fui grosseiramente atacado por causa disso.
Nos oito meses que se passaram desde lá, acumulam-se as evidências de que foi mesmo isso o que ocorreu. Mas não vi nenhuma autocrítica dos arautos do maniqueísmo de esquerda.
(2) Um grupo de intelectuais publicou, no jornal Le Monde, um manifesto em solidariedade aos presos políticos iranianos, sem deixar de condenar os ataques dos Estados Unidos. É um grupo heterogêneo, que vai de liberais radicais, como Judith Butler e Angela Davis, até marxistas como Michael Löwy. O manifesto gerou várias reações, destemperadas como a de Breno Altman, ponderadas como a de Vijay Prashad, mas todas tendo em comum a ideia de que não é conveniente criticar um país que está sendo agredido pelos Estados Unidos e por Israel.
Creio, pelo contrário, que a solidariedade às vítimas do regime iraniano é não apenas correta, do ponto de vista moral, como adequada politicamente. É preciso deixar claro, diante da opinião pública mundial, que o repúdio à agressão sofrida pelo Irã não tem nada a ver com a adesão à teocracia.
Infelizmente, muita gente vê a política e a história pela ótica do conto de fadas, onde, se existem os maus, do outro lado necessariamente estão os bons. O mundo é bem mais complexo do que isso. Aceitar a complexidade do mundo, no entanto, não é facultativo, ao menos para quem quer intervir de forma eficiente nele.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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