
A emissora pública italiana RAI afastou o jornalista Sigfrido Ranucci, após nove anos à frente do “Report”, um dos programas investigativos mais assistidos e influentes do país. A decisão, anunciada na noite de sexta-feira, provocou reação imediata da oposição, que acusou o governo de Giorgia Meloni de atacar a liberdade de imprensa.
“Não apresentarei mais o ‘Report’, mas liderarei a batalha mais importante da minha vida: a luta pela liberdade de imprensa”, disse Ranucci ao saber da decisão. A RAI ofereceu a ele a possibilidade de trabalhar em outros telejornais ou como correspondente no exterior.
O afastamento dominou a cobertura da imprensa italiana neste sábado. Elly Schlein, líder do Partido Democrático, de centro-esquerda, afirmou que enfraquecer o “Report” já era um objetivo antigo do governo de direita antes das eleições previstas para o próximo ano.
Aliados de Meloni defenderam a medida. O vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder da Liga, classificou a decisão como “correta” e cobrou esclarecimentos sobre questões envolvendo Ranucci. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, do Irmãos da Itália, também celebrou a saída do apresentador, cuja linha editorial criticava com frequência.

Atentado e prisão elevaram pressão sobre Ranucci
O caso ganhou novos contornos após um ataque a bomba em frente à casa de Ranucci, em outubro do ano passado. Na ocasião, políticos de diferentes correntes manifestaram solidariedade ao jornalista, e Meloni condenou o que chamou de “grave ato de intimidação”. O governo também prometeu reforçar a escolta policial dele.
Neste mês, a prisão do empresário Valter Lavitola, antigo colaborador de Ranucci, alterou o ambiente político. Segundo o advogado de Lavitola, ele disse aos promotores que ordenou o ataque contra a residência do jornalista.
As autoridades não encontraram evidências de que Ranucci soubesse previamente do atentado. Ainda assim, veículos alinhados ao governo passaram a divulgar a tese de que haveria uma conspiração para ampliar sua popularidade antes de uma eventual entrada na política.
A RAI não relacionou formalmente o afastamento às controvérsias recentes e afirmou que pretende fortalecer o jornalismo investigativo e abrir espaço para jovens talentos. Jornalistas do “Report” reagiram em comunicado, classificaram a decisão como “inaceitável” e avisaram que muitos integrantes da redação podem deixar a emissora se a direção não voltar atrás.