Rede argentina ligada a Cerimedo espalha fake news de “invasão” marroquina contra Lula em SC

Fernando Cerimedo e Eduardo Bolsonaro em evento de Donald Trump em Mar-a-Lago. Foto: reprodução

Contas argentinas ligadas ao consultor Fernando Cerimedo impulsionaram uma campanha que atribui sem provas ao governo Lula (PT) uma suposta “invasão” de marroquinos em Santa Catarina. As publicações recorreram a imagens da crise de refugiados em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, para ilustrar uma situação que não ocorreu no estado brasileiro.

A narrativa partiu do portal argentino La Derecha Diario, do qual Cerimedo detinha 50% até a semana passada. Sob o título “Gravíssimo: Lula impulsiona a imigração de marroquinos para o Brasil”, o site afirmou que as políticas do presidente teriam provocado uma alta de imigração e consequências econômicas nos municípios catarinenses.

O conteúdo se baseou na informação de que 50 marroquinos pediram refúgio em Santa Catarina nos três meses anteriores. Dados do Observatório das Migrações Internacionais e do Comitê Nacional para os Refugiados apontam 57 solicitações de marroquinos no estado até julho de 2026, o equivalente a 1,86% dos 3.059 pedidos registrados.

Os pedidos de cubanos somaram 1.707 no período, seguidos pelos de haitianos, com 543, venezuelanos, com 227, e argentinos, com 61. Em todo o país, houve 40.961 solicitações de refúgio em 2026: 24.008 de cubanos, 6.880 de venezuelanos e 835 de marroquinos.

Monitoramento identificou origem argentina e alcance da campanha

O Observatório Lupa mapeou 13,4 mil menções à narrativa em redes sociais e sites entre sexta-feira (21) e esta quinta-feira (27). As postagens saíram principalmente de contas sediadas na Argentina, seguidas por perfis brasileiros, e circularam em português e espanhol.

Versões intituladas “Onda de imigrantes marroquinos chega ao Brasil pelas mãos de Lula” e “Disparou a chegada de imigrantes marroquinos em Santa Catarina” alcançaram 475 mil visualizações. Entre os disseminadores, o influenciador Christopher Marchesini, conhecido como “Mate con Mote”, publicou vídeo afirmando que a imigração “ameaça fronteira da Argentina”.

Marchesini participou em maio de um encontro com o presidente argentino Javier Milei na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência, ao lado de outros influenciadores. Cerimedo, por sua vez, mantém proximidade com a família Bolsonaro e participou no fim de julho de uma live com Eduardo Bolsonaro, quando ambos voltaram a levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Maiquel Rosauro, analista de inteligência do Observatório Lupa, disse que a campanha retirou dados reais de contexto, exagerou números e criou uma ligação artificial com Lula. A Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, que atendeu os 50 marroquinos, relatou aumento de comentários hostis nas redes; sua coordenadora, Dina Scharb, afirmou que a entidade recebe contingentes muito maiores de cubanos e venezuelanos.

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