
O Camboja foi o principal destino de brasileiros registrados como vítimas de tráfico humano em 2025: 44 dos 84 casos atendidos pelo Protocolo Operativo Padrão do Ministério da Justiça. Relatos reunidos no país descrevem pessoas atraídas por promessas de emprego e salário em dólar, mas submetidas a golpes online, vigilância, agressões e trabalho escravo, segundo a Folha de S.Paulo.
Em Poipet, cidade cambojana na fronteira com a Tailândia, operações policiais alcançaram complexos onde quadrilhas mantinham estrangeiros. A moradora So Raksa, de 26 anos, viu homens e mulheres de várias nacionalidades correrem por um campo próximo à sua casa durante uma ação. “Foi surpreendente porque eram muitos”, disse.
A mãe dela, Hoeung Heab, afirmou ter visto pessoas com ferimentos ao redor do complexo, para o qual entregava galões de água. “Alguns deles tinham o olho roxo, os braços e as pernas machucados”, relatou. Ela também disse que os chefes do local espancavam pessoas no interior dos prédios.
Um brasileiro identificado pelo nome fictício de João contou que os recrutadores ofereciam US$ 4.000, cerca de R$ 20 mil, por jornadas de 12 horas, folgas aos domingos e contrato de um ano. Ele passou poucas horas em um dos prédios de Poipet antes de ser transferido para outro complexo.
Passaportes retidos e dívidas impostas às vítimas

Outro brasileiro, chamado de Paulo para preservar sua identidade, viajou até Bancoc e seguiu de carro para Poipet. Depois de três meses em funções sem ligação direta com os golpes, ele pediu para sair ao observar a chegada de dezenas de brasileiros. “Fui ameaçado de ser colocado na prisão. Minha família foi ameaçada”, afirmou.
As organizações criminosas retinham os passaportes com a alegação de que regularizariam vistos de trabalho. Depois, obrigavam as vítimas a assinar contratos de um ano e cobravam passagens, alimentação, hospedagem e outros custos, o que reduzia ou eliminava a remuneração prometida.
Um documento atribuído a uma vítima listava US$ 12.439, aproximadamente R$ 64 mil, para deixar o local. A cobrança incluía transporte, aluguel de escritório, internet, alimentação, material de uso diário, taxa de proteção, licença de software de inteligência artificial e créditos de celular.
Os complexos tinham postos de controle, muros de concreto com arame farpado e câmeras de segurança. Trabalhadores de um hospital regional de Poipet relataram que operações policiais levaram estrangeiros com fraturas e outros ferimentos graves, alguns dos quais precisaram passar por cirurgia antes de serem deportados.
A Anistia Internacional questiona a eficácia da repressão e aponta falhas sistêmicas, continuidade das operações após batidas policiais, criminalização de vítimas e possível conluio entre autoridades locais e gerentes dos complexos. O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, declarou que o governo investigará evidências críveis contra autoridades que tenham protegido, facilitado ou lucrado com golpes online.
Pheaktra afirmou que o país investigou 751 endereços ligados a esses complexos e fechou 605 deles. Segundo o ministro, as autoridades resgataram 21,6 mil estrangeiros de 38 nacionalidades e encaminharam 388 casos relacionados a golpes eletrônicos à Justiça, além de manter cooperação com o Brasil para repatriação de cidadãos e combate aos crimes.