Mulheres conquistam mais espaço e direitos no trabalho, mas ainda ganham menos

Apesar de a legislação brasileira estabelecer que mulheres e homens devem receber o mesmo salário na mesma função, a estrutura social machista no meio empresarial ainda impõe valores inferiores para as trabalhadoras. Elas ganham, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado com 100 ou mais empregados, mas essa diferença pode ficar em torno dos 30% em cargos de chefia. Por outro lado, aumentou em 11% o número de mulheres no mercado de trabalho.

Os dados, relativos a 2025, fazem parte do 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A base usada para a análise é a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que abrange cerca de 53,5 mil estabelecimentos com 100 ou mais empregados. Sua divulgação é parte do esforço para a redução das desigualdades salariais de gênero proposto pela Lei 14.611/2023.

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Em média, segundo o levantamento, as mulheres em geral recebem 78,7% da remuneração masculina nos mesmos cargos. Elas respondem por cerca de oito milhões dos vínculos empregatícios e têm remuneração média de R$ 3,9 mil — enquanto a deles fica em R$ 5 mil.

No caso das mulheres negras (pretas e pardas), a diferença é ainda maior: elas ganham em média R$ 3 mil, enquanto as não negras podem chegar a R$ 5 mil. Em relação aos homens, os negros têm remuneração de, em média, R$ 3,8 mil; já os homens não negros ficam no topo de todos esses recortes, registrando ganhos de, em média, R$ 6,5 mil. Tais remunerações são diferentes do salário contratual médio, que pode ser até três vezes menor do que o pagamento efetivo.

Quando analisados os cargos, a maior diferença salarial de gênero encontra-se nos de dirigentes e gerentes. Neste caso, considerando a remuneração média, elas recebem cerca de 73% deles. A menor disparidade encontra-se nos cargos técnicos de nível médio, onde elas podem ganhar até 66% do salário deles.

No geral, do ponto de vista numérico, o levantamento aponta leve aumento na desigualdade salarial sobre 2023; porém, quando analisado estatisticamente, essa diferença representa estabilidade, segundo o MTE. Em 2023, as mulheres recebiam 13,7% a menos no salário mediano de contratação; agora, a diferença é de 14,3%. No rendimento médio, a diferença passou de 20,7% para 21,3%.

Os estados com menor desigualdade são Acre (91,9%), Piauí (92,1%), Distrito Federal (91,2%), Ceará (90,5%), Pernambuco (89,3%), Alagoas (88,8%) e Amapá (86,9%). Os com maior desigualdade salarial são Espírito Santo (70,7%), Rio de Janeiro (71,2%) e Paraná (71,3%).

Mais mulheres trabalhando

Os principais dados positivos trazidos pela pesquisa dizem respeito à maior participação feminina no mercado de trabalho. O número de mulheres empregadas cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões — um acréscimo de 800 mil trabalhadoras. Entre mulheres negras (pretas e pardas), o crescimento foi de 29%, passando de 3,2 milhões para 4,2 milhões, o que representa mais 1 milhão de ocupadas.

Ainda de acordo com o levantamento, também houve aumento no número de estabelecimentos com pelo menos 10% de mulheres negras, que chegou a 21.759, crescimento de 3,6% em relação a 2023.

Já a massa de rendimentos das mulheres subiu de 33,7% para 35,2%. Ainda assim, para alcançar participação equivalente à presença feminina no emprego (41,4%), seria necessário um acréscimo de R$ 95,5 bilhões nos rendimentos.

De acordo com a Subsecretaria de Estatística e Estudos do Trabalho do MTE, “aumentar a massa em 10,6% teria impacto no consumo das famílias e diminuiria a diferença de rendimentos entre homens e mulheres, mas isso representa custo para as empresas, o que as torna mais resistentes a promover essas mudanças”.

Mudanças na política das empresas

O relatório ainda traz outros dados relevantes do ponto de vista das políticas internas das empresas entre 2023 e 2025. É o caso do aumento na oferta de jornada flexível (de 40,6% para 53,9%) e de auxílio-creche (de 22,9% para 38,4%).

Também cresceram as licenças-maternidade e paternidade estendidas (de 20% para 29,9%), além da adoção de planos de cargos e salários (de 55,5% para 66,8%) e de metas de produção (de 63,8% para 75,7%).

Além disso, também aumentou a proporção de empresas que afirmam promover mulheres, de 38,8% para 48,7%, bem como a contratação de mulheres indígenas, de 8,2% em 2023 para 11,2% em 2025.

No caso da contratação de mulheres vítimas de violência, praticamente dobrou, de 5,5% para 10,5%. O levantamento indica, ainda, que 7% dos estabelecimentos afirmam contratar mulheres em situação de violência, com maior concentração nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Os setores com maiores parcelas de contratação são os serviços de alimentação (17,8%), as atividades de vigilância e segurança (16,2%), os serviços de reparação e manutenção de equipamentos (13,6%) e os serviços para edifícios e paisagismo (13,1%).

Já as ações de contratação de mulheres com deficiência, LGBTQIA+ e chefes de família permaneceram relativamente estáveis.

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