A necessidade de ter cuidados ao interpretar pesquisas eleitorais, segundo jurista

Simulação de pesquisa eleitoral. Foto: reprodução

Em artigo para o Diário de Pernambuco publicado nesta sexta-feira (24), o advogado Maurício Rands, professor de Direito Constitucional da Unicap e PhD pela Universidade Oxford, alerta para os riscos de interpretar pesquisas eleitorais como retratos definitivos da realidade, citando vieses metodológicos, alto percentual de indecisos (62% na espontânea) e eleitores que admitem mudar de voto (43%). Na ocasião, o jurista destacou o caso de Pernambuco, onde a governadora Raquel Lyra tem aprovação acima de 60% e raramente perde a reeleição, e a eleição nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro, classificada como “clássico imprevisível”:

Muito cuidado com as pesquisas

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção. […]

Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que geralmente é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. O Datafolha apresentou dados em descompasso com o de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos […]

O jurista Maurício Rands. Foto: reprodução

No caso da Datafolha, em alguns estados não terceiriza as equipes de entrevistadores. No início concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença para as demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos. Assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto. Como lembrou Renato Meirelles em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para presidente quando inicialmente indagados sem o estímulo do disco com as alternativas. Isso significa 96 milhões que não externaram espontaneamente uma preferência. […]

Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição. […]

Foi o caso de Jair Bolsonaro, que em 2022 tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de “ótimo/bom” oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda, quando a rejeição individual (o “não voto de jeito nenhum”) for maior que 30% mesmo com o governo bem avaliado. […]

No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível.

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