Sakamoto: Trump torra bilhões em bombas, mas apanha da IA de baixo custo do Irã

Vídeos de IA do Irã contra Trump também ressaltam que o caminho do mundo não é lá dos melhores
Charge: Carlos Latuff

Por Leonardo Sakamoto, no UOL 

Estima-se que os Estados Unidos tenham gasto mais de meio trilhão de reais no seu ataque ao Irã apenas nas primeiras semanas. Os bombardeios destruíram infraestrutura e abateram metade da capacidade militar do adversário, sem contar os milhares de mortos, mas a impressão é de que é Donald Trump que está perdendo a guerra. E os vídeos gerados por inteligência artificial, que podem ser produzidos ao custo de um podrão e uma tubaína a partir de celulares comuns, têm grande culpa nisso.

Muito já se falou sobre o problema para o Pentágono representado por drones iranianos lançados de forma descentralizada sobre o Estreito de Hormuz, a um preço de carro popular cada, enquanto os EUA dependem de mísseis de milhões de dólares com estoque limitado. Parte do conflito, contudo, ocorre na disputa simbólica do rebosteio, transformando a resiliência do Irã diante do poderio militar dos EUA e de Israel em humilhação pública global para Trump.

Os vídeos produzidos pelo Irã mostrando os EUA conduzidos por um líder tecnicamente inepto e emocionalmente incapaz provocam um dano à imagem e à reputação do presidente, de suas Forças Armadas e de seu país que ainda é difícil mensurar.

O estrangulamento do escoamento de petróleo no Golfo Pérsico por Teerã criou uma crise global de energia, que está caindo na conta do ocupante da Casa Branca. Com exceção dos seguidores MAGA mais radicais (sejam os que falam inglês ou outras línguas, como o português), o resto do mundo está uma arara com o republicano. E veem na resistência iraniana um sinal de fracasso de Washington.

Os vídeos produzidos por ferramentas de IA estão reforçando essa percepção, batendo em Trump onde mais lhe dói: sua imagem pública. Os iranianos e seus aliados disparam versões em inglês para atingir o público interno dos Estados Unidos, que vai às urnas em novembro para decidir se o presidente continuará com maioria na Câmara e no Senado ou se vai se tornar um pato manco nos próximos dois anos, fugindo de investigações conduzidas pelo parlamento. Pesquisa Reuters/Ipsos apontam que apenas 36% o aprovam no cargo, mostrando que ele perdeu apoio inclusive na sua base.

A conta de Trump não fecha, nem em dólares nem em narrativa. A guerra, hoje, não é só sobre quem tem mais poder de fogo, mas sobre quem consegue convencer o mundo, em tempo real, de que está vencendo porque segue vivo.

E, nisso, um míssil de milhões pode perder feio para um vídeo de segundos. Trump até derruba prédios, mas não consegue sustentar a própria imagem de invencibilidade e, sem ela, sobra apenas o custo. Bilionário, crescente e cada vez mais difícil de explicar ao eleitor, que paga a conta no posto de gasolina e nas urnas e que ouviu dele, nas eleições do ano passado, que não entraria mais em guerra inútil.

No campo de batalha, destruição. No campo simbólico, desgaste. E, no século 21, é esse segundo terreno que costuma definir quem realmente sai derrotado, mesmo quando ainda há bombas sendo lançadas no adversário.

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