Era um final de tarde em Istambul, por volta das 19 horas. O frio dominava a cidade, que por séculos tem sido palco de encontros e conflitos entre diferentes culturas. Contudo, ao adentrar o Centro Cultural Nazım Hikmet, o frio ficava para trás. Dentro daquele espaço, presenciava-se um vibrante encontro entre delegadas e delegados internacionais, onde conversas fluíam em vários idiomas e gestos de acolhimento e reconhecimento entre diversas nações se faziam visíveis. O ambiente era diferente, aquecido pela solidariedade e pela união de pessoas de várias partes do mundo.
O dia não era comum. A atividade aconteceu em 19 de abril, uma data que é um símbolo na história de Cuba e na luta contra o imperialismo. Foi exatamente nesse dia, em 1961, que mercenários apoiados pelos Estados Unidos tentaram invadir a ilha pela Playa de Girón, mas foram derrotados pelo povo cubano, resultando na histórica vitória de Girón. A lembrança desse triunfo permeava a noite em Istambul, dando ainda mais significado ao encontro.
Aquele espaço, repleto de história, parecia pulsar com o passado. O Centro Cultural Nazım Hikmet, sob a administração do Partido Comunista da Turquia, homenageia um dos poetas revolucionários mais importantes do século 20, cuja trajetória foi marcada por perseguições, exílio e um profundo compromisso com as causas populares. É um exemplo concreto de política cultural associada ao partido, que pode servir de modelo para iniciativas semelhantes no Brasil, como a Casa Augusto Buonicore, em Campinas. Sua presença não estava apenas nas paredes ou no nome do local, mas na atmosfera que envolvia as interações, na forma como as pessoas se encontravam, ouviam e se reconheciam.


Foi nesse clima que se desenrolou a atividade político-cultural em apoio a Cuba, reunindo delegadas e delegados de diversas nações durante a 24ª Reunião do Grupo de Trabalho do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Mais do que um evento, tornou-se um momento de união de trajetórias distintas, todas unidas por uma visão compartilhada do mundo e pela necessidade de defendê-lo.
A programação cultural foi magnifica e repleta de simbolismo. A noite iniciou com uma apresentação instrumental de bateria e piano interpretando El necio, de Silvio Rodríguez, que definiu o tom intenso e sensível do encontro. Em seguida, uma série de apresentações musicais foi entrelaçando um repertório que reverberava décadas de luta e memória. Canções como Si me quieres escribir, de Emilio Prado, Hasta siempre, Comandante e De Cuba traigo un cantar, de Carlos Puebla, ecoaram junto à clássica Guantanamera, de Joseíto Fernández.
Um dos momentos mais impactantes da noite ocorreu quando um coral subiu ao palco, intensificando o sentido coletivo do evento. As vozes, entoadas em uníssono, reforçavam não apenas a beleza estética da apresentação, mas também a ideia de unidade entre os povos, transformando a música em uma expressão concreta de solidariedade internacional.
Quando soaram Y en eso llegó Fidel, também de Puebla, e Girón, la victoria, de Sara González, a memória histórica de Cuba se fez quase palpável.


O repertório musical também cruzou fronteiras. El pueblo unido jamás será vencido, de Sergio Ortega e Quilapayún, reafirmou a perspectiva latino-americana da luta, enquanto One should be like the sea, de Zülfü Livaneli, trouxe à tona a rica tradição de resistência turca. Entre as canções, a poesia de Nâzım Hikmet ressoava, musicada e cantada em espanhol, aproximando ainda mais Cuba à Turquia.
À beira do mar, como na canção, um homem se interroga se deve ser nuvem, barco ou peixe, ou até mesmo o próprio mar.
No palco, artistas cubanos e turcos compartilharam não apenas música, mas também história e compromisso. Era uma cena repleta de emoção, onde culturas e trajetórias distintas se encontraram em uma mesma sensibilidade política e humana.
A cada intervenção, a cada palavra, o público respondia. As falas eram frequentemente interrompidas por gritos de ordem, em espanhol e turco, mas com um significado comum: apoio a Cuba, denúncia ao imperialismo e afirmação da luta dos povos. O que se via não era uma plateia passiva, mas um coletivo vibrante, engajado e participativo.
Estavam presentes jovens, idosos, famílias inteiras com seus filhos, todos desfrutando daquele momento como uma verdadeira celebração internacionalista. O valor humano daquele encontro se manifestava na diversidade de países, culturas e trajetórias, mas também na calorosa recepção dos turcos, que acolhiam os delegados com generosidade, atenção e um profundo senso de solidariedade. A solidariedade não se limitava a discursos ou canções, mas se materializava na presença das pessoas, na maneira como ocupavam o espaço e se reconheciam como parte de um propósito comum.


Entre falas e músicas, Cuba era mais do que um tema; era uma presença viva. Representava a resistência e a dignidade de um povo que, apesar de décadas de bloqueio e pressão, continua a afirmar sua soberania. Naquela noite, falar sobre Cuba era também abordar questões de dignidade, resistência e um futuro promissor.
Elier Ramírez, representando o Partido Comunista de Cuba, ressaltou a importância daquele momento, afirmando que “a solidariedade com Cuba não é apenas um ato político, mas a manifestação concreta da união de nossos povos na defesa da soberania e do direito de traçar seus próprios caminhos”.
Na mesma linha, Kemal Okuyan, secretário geral do Partido Comunista da Turquia, enfatizou a relevância do internacionalismo atualmente, afirmando que “em tempos de ofensiva imperialista, fortalecer a solidariedade entre os povos é uma tarefa urgente e necessária para todos que buscam justiça e liberdade”.
A música, as palavras e os gestos criavam um espaço compartilhado, onde o internacionalismo deixava de ser um conceito abstrato e se tornava prática. Ao final, em um clima mais descontraído, delegadas e delegados internacionais se reuniram para um jantar coletivo, ao lado dos representantes de Cuba na Turquia, compartilhando comida e bebida local e prolongando a convivência que havia sido vivenciada no palco e nas intervenções.
Na confraternização, um elemento da cultura local também ganhou destaque. O Rakı, uma bebida tradicional turca feita de uvas e aromatizada com anis, foi servido e compartilhado entre os presentes. Quando misturado com água fria, a bebida incolor se transforma em uma coloração branca leitosa, simbolizando a união e a celebração. O Rakı acompanhou os brindes da noite, marcando mais um momento de entrelaçamento entre culturas.
Para o Partido Comunista do Brasil, estar presente naquele evento foi reconhecer essa dimensão mais profunda da política, que não se esgota em documentos, mas se reafirma na vivência dos povos. Na cultura.
Do lado de fora, Istambul continuava fria. Porém, dentro do Centro Nazım Hikmet, algo permanecia aquecido. Um calor que não vinha apenas dos corpos, mas do que unia a todos ali.
Como na canção inspirada na poesia de Nâzım Hikmet, Bulut mu olsam?, cantada naquela noite, à beira do mar, um homem se questiona.
“Ser nube, ser barco, ser pez
o ser el alga en el fondo del mar”
Talvez, naquela noite, a resposta estivesse presente, naquilo que era compartilhado. Ser mar.
Para ouvir as músicas que marcaram a atividade político-cultural em apoio a Cuba, acesse a playlist no Spotify.