O trabalho no sistema de produção capitalista, além de gerar exploração e miséria para a maioria em prol da acumulação desmedida de uma minoria privilegiada, que se beneficia da exploração alheia nesse contexto desumano. O sistema capitalista, especialmente durante a Era Industrial, promove um afastamento da essência do trabalho, invertendo o processo que se estabeleceu entre os seres humanos em sua origem, que não está relacionado ao capitalismo e à produção de mercadorias.
Conforme Antunes (2005, p. 72):
“A atividade produtiva, marcada pela fragmentação e isolamento característicos do capitalismo, resulta na atomização dos indivíduos, não cumprindo adequadamente a função de intermediação entre o ser humano e a natureza, reificando e coisificando tanto os indivíduos quanto suas relações. Em vez de promover a consciência de um ser social livre e emancipado, prevalece o culto à privacidade e a idealização do indivíduo de maneira abstrata. Assim, ocorreu uma transformação fundamental no universo do trabalho como uma atividade vital, onde a identidade entre o indivíduo e seu genérico se torna uma forma de objetivação do trabalho, em que as relações sociais entre os produtores se manifestam, como Marx apontou, como relações entre os produtos do trabalho. As relações sociais entre os seres humanos assumem a forma de relações entre coisas.”
A crítica à economia política vai além de uma análise macroeconômica, mesmo que crítica aos pressupostos neoliberais, pois não se trata apenas de administrar a política econômica de um país ou regular o capitalismo em sua essência. Não se limita, portanto, a gerenciar as crises cíclicas do capitalismo, como observamos historicamente, nem à suposição de que a classe dominante nacional abrirá mão de seu projeto de acumulação aliado ao imperialismo. Observamos, ainda, o desenvolvimento dos aspectos do imperialismo que impactam as nações periféricas, pressionando suas políticas internas e externas para que se alinhem aos interesses das nações dominantes.
Entretanto, esse sistema desigual entre as nações e as disputas internas pelo poder também podem levar a desvios na condução das políticas da classe dominante, conforme os variados interesses das frações da burguesia e a correlação de forças estabelecida em cada sociedade, além da influência de movimentos sociais que escapam ao controle das próprias nações, considerando o tamanho e a intensidade desses movimentos nas fronteiras e a submissão das nações aos ditames globais. Existem diversas forças e contextos complexos que, combinados, produzem formas de exploração distintas no capitalismo dependente. Atualmente, além do agravamento da degradação do trabalho em nível global, dois aspectos são cruciais neste momento de crise estrutural do capitalismo.
O primeiro aspecto refere-se à construção do capitalismo como uma máquina complexa de produção, distribuição e consumo, no processo de acumulação e reprodução ampliada de capital; isso continua a se expandir devido aos avanços tecnológicos. O segundo aspecto diz respeito ao imperialismo como mecanismo de transferência de renda, controle e distribuição (drenagem) dos orçamentos públicos, e ao enriquecimento da classe dominante mundial, o que chamamos de financeirização do capital, que Marx categoricamente definia como capital fictício e capital portador de juros, autênticas categorias analíticas desse tipo de acumulação e reprodução ampliada do capital.
Conforme Harvey (2018, p. 111):
“A questão da tecnologia é fundamental para entender as dinâmicas do capital em movimento. Marx é um dos comentaristas mais incisivos e premonitórios sobre o tema. Isso não significa que suas análises sejam completas ou que possam ser aceitas sem contestação. A tecnologia, em combinação com a ciência, é uma preocupação central ao longo do Livro I d’O Capital, mas é tratada como constante no Livro II. No Livro III, Marx discute algumas das consequências da transformação tecnológica para o lucro e a renda, além de fazer comentários ocasionais sobre características tecnológicas e organizacionais da intermediação financeira e da circulação monetária. O foco de Marx em O Capital é o papel da tecnologia e da ciência em relação à valorização do capital e à produção de mercadorias. Nos Grundisse, ele adota uma postura mais abrangente e fornece comentários, às vezes especulativos e premonitórios, acerca de questões tecnológicas.”
A abordagem de Harvey corrobora com a nossa interpretação de que Marx, em suas teses críticas sobre a economia política, especialmente no livro O Capital, já no primeiro volume, analisava detalhadamente o papel da tecnologia no processo de acumulação e reprodução do capital. No livro III de Marx, editado por Engels no final de sua vida, a obra aborda minuciosamente as questões relacionadas ao capital fictício e ao capital portador de juros, uma vez que Marx não utilizava a expressão “capital financeiro”. Ele já escrevia sobre as bolsas de valores e o papel dos bancos antes mesmo da publicação de O Capital, reconhecendo a forte presença desses capitalistas na Europa do século XIX.
As inovações tecnológicas trazidas pela revolução da microeletrônica na década de 1970 não apenas impulsionaram a produtividade na indústria, mas também em todos os setores de atividade econômica, inclusive no capital financeiro, que passou a empregar essas tecnologias para transferir divisas, negociar ações e adquirir títulos públicos e privados em todo o mundo. As liberalizações e desregulamentações do mercado financeiro se tornaram cada vez mais rápidas e dinâmicas, colocando as economias periféricas no centro das inovações mais modernas em finanças, apesar do aumento da pobreza e da desigualdade global entre as nações e internamente a elas, mesmo em países considerados ricos como os EUA.
A pandemia do SARS COV 2 (Covid-19) evidenciou a profundidade da crise estrutural do capitalismo e da própria civilização. As pandemias têm alertado há tempos a humanidade sobre os riscos de um colapso sanitário catastrófico na ordem global, mas a indústria farmacêutica, em conjunto, adota um discurso de monitoramento sob controle, apesar da falta de interesse em tomar as devidas precauções em relação às pesquisas científicas em parceria com as autoridades nacionais e internacionais no campo da saúde. Para os keynesianos mais otimistas, a presença do Estado na vida econômica e social é crucial para manter o funcionamento do capitalismo e organizar as políticas públicas necessárias ao bem-estar da população. Contudo, como a lógica capitalista não se submete a certos controles e normas impostas pelo Estado sob a vigilância da sociedade civil, pois o Estado serve aos interesses da classe dominante, conforme Marx e Engels (2002, p. 101) afirmam: “Como o Estado é a forma pela qual os indivíduos de uma classe dominante fazem valer seus interesses comuns e condensam toda a sociedade civil de uma época, segue-se que todas as instituições comuns que são medidas pelo Estado adquirem uma forma política.”
O Estado, na fase imperialista do capitalismo monopolista, tem a função de proteger e privilegiar os interesses dos grupos dominantes, especificamente dos detentores de capital, como afirmava Marx, que se destaca não apenas pela riqueza econômica, mas também pelo capital cultural, acadêmico, profissional e político, entre outros, como aponta Bourdieu (2008, p. 241):
“Se é verdade que, conforme tentamos comprovar, a classe dominante constitui um espaço relativamente autônomo, cuja estrutura é definida pela distribuição, entre seus membros, das diferentes espécies de capital, de modo que cada fração é caracterizada propriamente por certa configuração dessa distribuição à qual corresponde, por intermédio dos habitus, certo estilo de vida.”
Essa citação revela que a classe dominante possui uma gama diversificada de “capitais” dentro da burguesia, o que lhes permite controlar e manter a dominação através das instituições e suas ideologias nas formas de cultura, conhecimento e saberes distintos, além das articulações que compõem o capital político e a evidente concentração de poder econômico. Assim, as grandes corporações transnacionais são geridas por grupos privados e recebem apoio estatal, sendo razoável afirmar que os organismos sanitários, farmacêuticos e financeiros, entre outros, têm conexões estreitas entre o que é de interesse público e as diversas formas de interesses particulares. No caso das crises sanitárias, parece claro que, historicamente, a vigilância e o controle sempre foram monitorados de perto pelos interesses que buscam mitigar ou não as crises que se aproximam, pelo menos desde meados do século XX.