De acordo com a perspectiva que adotamos neste site, não há livros difíceis. Entretanto, se o leitor procura uma obra que represente um desafio, uma das melhores recomendações é “Rayuela”, um romance do autor argentino Júlio Cortázar, lançado em 1963 em espanhol. No Brasil, a obra foi traduzida e publicada pela Companhia das Letras em 2019, sob o título “O jogo da amarelinha”, que, apesar de não capturar a sonoridade encantadora do original, conserva seu significado “literalmente figurado”.
Isso se deve ao fato de que, neste livro, a narrativa é moldada pelos caminhos que o leitor decide explorar. Essa abordagem influenciou diversas obras infantis, onde se propõe “agora que você chegou aqui, escolha a página tal se deseja que o herói enfrente o inimigo, ou a página tal se prefere que ele fuja com a donzela”. Em Cortázar, essa técnica é apresentada de maneira mais complexa, densa e angustiante.
Cursos e percursos (sem spoilers)

Na trama, acompanhamos o romance entre Horácio, um argentino que desfruta de uma vida boêmia em Paris, e Lúcia, uma jovem uruguaia simples que imigrou para a França em busca de uma vida melhor ao lado de seu filho Roncamadour. Conhecida como “La Maga”, Lúcia se encanta pela cultura de Horácio, sonha em ser atriz e vive com dificuldades, em um pequeno quarto alugado, enquanto cuida do menino.
Um dos capítulos mais belos da obra é uma declaração de amor de Lúcia para Roncamadour, expressa por meio de uma carta que revela sua confusão e amor. É possível encontrar no YouTube trechos de Cortázar recitando a prosa de Lúcia, que termina com encantadores apelidos que a mãe atribui ao filho, como “dente de alhozinho, eu te amo tanto, nariz de açúcar, arvorezinha, cavalinho de pau…”.
Durante a leitura, o autor nos oferece duas perspectivas: uma, com uma narrativa linear, que conta a história de forma direta; e outra, composta por textos avulsos que estão anexados à obra principal, numerados, que podem ser acessados por meio do número indicado ao final de cada capítulo, direcionando o leitor ao apêndice. Este apêndice é extenso, quase do tamanho da narrativa principal, e, embora os textos não estejam necessariamente conectados à história, eles possuem relevância à medida que a trama se complica e atinge seu clímax.
Tragédia e loucura (com spoilers)

O momento em que La Maga interage com o bebê é o prenúncio da tragédia que permeia a narrativa. Dominada pelo amor que sente por Horácio e pela vida boêmia que o acompanha, Lúcia se vê sucumbindo à sua pobreza e à falta de condições para cuidar de seu filho. Mesmo com recursos escassos, ela continua a participar das festas, deixando Roncamadour de lado, enquanto sonha com seu futuro como atriz e a segurança de seu amor por Horácio.
Em uma festa em sua própria casa, Roncamadour adoece gravemente, e Lúcia tenta cuidar dele com remédios de baixo custo. Em meio às idas e vindas entre a festa e o quarto do bebê doente, ela descobre, em um momento trágico, que seu filho faleceu. A dor da perda é devastadora, levando-a a deixar o apartamento de forma descontrolada, e essa é a última vez que ela aparece na trama.
Daí surge o título do livro, “O jogo da amarelinha”, equivalente a “Rayuela” em espanhol. A segunda parte da narrativa é dedicada às recordações de Horácio, que já são sinalizadas na primeira frase do livro: “Encontraria La Maga?”. Esta parte nos leva à loucura que se instala em Horácio, que retorna à Argentina e é cuidado por um casal, sem conseguir pensar em outra coisa além de reencontrar sua amada desaparecida.
Toda a busca ocorre em sua mente, mas se revela apenas como delírios. Para encontrar pistas sobre “onde está a Maga”, o leitor deve seguir os números ao final das páginas que o direcionam aos apêndices, os quais por sua vez levam a outros apêndices, criando um labirinto de caminhos dentro do livro, enquanto se tenta entender o destino da mulher que perdeu o filho. Terá se suicidado em uma ponte de Paris? Terá optado por viver de sua arte, agora livre da responsabilidade de criar uma criança, que já lhe parecia um fardo? Terá voltado ao Uruguai para recomeçar a vida, depressiva e resignada? Não há respostas, e nunca as teremos.
Idas e vindas: a amarelinha

Muitos leitores, incluindo acadêmicos, tentam desvendar os rumos da história através da leitura dos apêndices, mas nunca encontraram uma solução, como se fosse um sistema matemático complexo onde quem fornece uma resposta ganha a Medalha Fields, o prêmio Nobel da área. A leitura de “Rayuela” exige um distanciamento do leitor; caso contrário, mergulhar emocionalmente na narrativa pode aprisioná-lo em um labirinto de possibilidades deixadas por Cortázar, que nunca revelou uma solução para o drama de La Maga e Horácio.
Machado de Assis, que influenciou Cortázar em seu realismo mágico, foi mais generoso com seus leitores, ao deixar claramente seu mistério insolúvel: “Capitu traiu ou não Bentinho?”. Por outro lado, o autor argentino nos confinou em um labirinto, ou um jogo de amarelinha, onde uma hipotética resposta pode estar em seus meandros, mas nunca será encontrada.