Morte de pescador vira 1ª denúncia formal contra bombardeios dos EUA no Caribe

A família do pescador colombiano Alejandro Andrés Carranza Medina, 42, apresentou nesta semana a primeira denúncia internacional formal contra a campanha de ataques militares ordenada pelo presidente Donald Trump no Caribe e no Pacífico. 

O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em Washington, e acusa diretamente os Estados Unidos de terem realizado uma execução extrajudicial no bombardeio de 15 de setembro — episódio até então tratado pela Casa Branca como ação contra “narcoterroristas venezuelanos”.

A petição, assinada por Katerine Hernández Bernal, esposa da vítima, afirma que “os militares dos Estados Unidos bombardearam o barco de Alejandro Andrés Carranza Medina […] e o senhor Carranza foi morto no curso desse bombardeio”. 

O documento sustenta que os EUA violaram direitos fundamentais previstos na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, incluindo o direito à vida, ao devido processo e à igualdade perante a lei.

O advogado de direitos humanos Dan Kovalik, representante da família, declarou à CNN que “essas mortes violam o direito internacional. Elas violam a lei dos EUA”, e que o objetivo da ação é interromper os ataques e buscar reparação.

“Queremos que isso pare, e acreditamos que este é pelo menos um primeiro passo para que isso aconteça”, disse.

A CIDH expressou preocupação com a escalada dos bombardeios. Em nota divulgada na quarta-feira (3), declarou que os Estados Unidos devem assegurar que operações extraterritoriais respeitem “o direito à vida, o uso proporcional da força, as garantias de devido processo e os mecanismos de responsabilização”.

Alejandro Carranza Medina ao lado do filho em passeio de barco, antes do ataque de 15 de setembro. Foto: Família Carranza

A denúncia latino-americana chega em meio a condenações internacionais. O alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que os ataques norte-americanos constituem “violações ao direito internacional”, enquanto entidades como Human Rights Watch e Anistia Internacional classificam os bombardeios como “execuções extrajudiciais”.

A CIDH vai analisar se admite o caso. Se aceitar, poderá solicitar informações formais aos EUA, recomendar o fim imediato da política de bombardeios e exigir investigação das mortes e reparação às famílias. A etapa seguinte pode incluir o envio do caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, cujas decisões são vinculantes.

Nos EUA, a denúncia internacional aprofunda o isolamento da Casa Branca. A pressão atinge especialmente o secretário de Defesa, Pete Hegseth, cuja conduta foi “ratificada” por Trump, segundo a petição. 

“A petição que apresentei em nome da esposa e dos filhos de Carranza é a primeira denúncia formal contra os ataques no Caribe e no Pacífico, e acreditamos que outras virão”, afirma Kovalik.

A escalada militar de Trump: mortes em série e pressão por investigação

A campanha militar ordenada por Trump começou em setembro sob o argumento de atacar embarcações vinculadas ao narcotráfico — justificativa contestada por governos da região e por analistas, que veem a ofensiva como parte da pressão psicológica para derrubar Nicolás Maduro e recompor o controle norte-americano sobre as maiores reservas de petróleo do mundo.

Desde então, foram 22 ataques no Caribe e no Pacífico, deixando cerca de 83 mortos, segundo dados confirmados por CNN, Reuters e Washington Post. Relatórios de governos latino-americanos indicam que a maioria das vítimas era formada por pescadores, migrantes e trabalhadores informais, e não por integrantes de cartéis.

A Operação Southern Spear emprega drones MQ-9 Reaper, caças F-35, helicópteros da Marinha e destróieres deslocados simultaneamente para Caribe e Pacífico. Analistas consideram que o contingente — mais de 15 mil militares — excede padrões de operações antidrogas e configura uma escalada geopolítica na região.

O porta-aviões USS Gerald R. Ford é rebocado próximo à ilha de Saint Thomas, nas Ilhas Virgens Americanas, em meio à expansão da presença militar dos EUA no Caribe. Foto: Reprodução

O caso mais grave, investigado pelo Congresso, ocorreu em 2 de setembro, quando 11 venezuelanos morreram após dois disparos contra uma mesma embarcação. O vídeo divulgado — 29 segundos editados — mostra apenas o primeiro impacto. 

Segundo revelado pelo Washington Post, o ataque ocorreu em duas etapas. No primeiro bombardeio, a explosão destruiu a embarcação e matou a maior parte da tripulação. Dois sobreviventes permaneceram vivos, agarrados a destroços no mar. 

Fontes da operação afirmam que, ao ser informado dessa situação, Pete Hegseth deu uma ordem verbal para que “ninguém fosse deixado vivo”, instrução que teria levado o almirante Frank M. Bradley a autorizar um segundo disparo para matar os náufragos — prática proibida pelo Direito Internacional Humanitário e pelas próprias normas militares dos Estados Unidos.

Após as revelações, a Casa Branca tentou atribuir a responsabilidade exclusivamente a Bradley.

“Não apenas o direito internacional proíbe atacar sobreviventes, como exige resgatá-los, protegê-los e tratá-los como prisioneiros de guerra. Violações dessas obrigações são crimes de guerra, assassinato ou ambos”, disse grupo um ex-advogados militares do país.

As comissões de Serviços Armados da Câmara e do Senado exigem que o Pentágono entregue vídeos integrais, áudios e ordens escritas. O senador Mark Kelly declarou que Hegseth deve depor “em público e sob juramento”. Republicanos como Roger Wicker também pediram investigações.

A tensão política se ampliou após Trump prometer “novos ataques muito em breve” e após a Casa Branca tentar atribuir a responsabilidade operacional exclusivamente a Bradley, enquanto Hegseth afirmou que “apenas começamos a matar narco-terroristas”.

Nesta terça-feira (2), parlamentares de ambos os partidos anunciaram que acionarão a Resolução dos Poderes de Guerra (War Powers Resolution) caso Trump ordene qualquer ataque dentro da Venezuela.

Democratas Tim Kaine, Chuck Schumer e Adam Schiff, e o republicano Rand Paul, afirmaram em nota conjunta que “ação militar não autorizada contra a Venezuela seria um erro colossal e custoso.”

Na Câmara, Jim McGovern, Joaquin Castro e Thomas Massie apresentaram resolução paralela com o mesmo objetivo.

Reação colombiana e novas frentes diplomáticas na região

A morte de Carranza tornou-se um teste crítico para a diplomacia latino-americana. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, intensificou as críticas desde fim de outubro, quando denunciou que o ataque de 15 de setembro havia matado “um pescador sem qualquer vínculo com o tráfico de drogas” e que a operação poderia ter ocorrido em águas colombianas.

“Carranza era pescador desde a vida inteira e sua embarcação exibia um sinal de socorro porque tinha danos no motor”, afirmou Petro em encontro com a família da vítima, em 8 de novembro.

“Mesmo que tenha aceitado transportar mercadorias proibidas por causa de sua situação financeira, suas ações nunca mereceram a pena de morte”, completou.

O governo venezuelano classificou a ofensiva dos EUA como “ato hostil e colonial”, ampliando a tensão regional gerada por operações que atingem habitantes de Venezuela, Equador e Colômbia — muitos deles pescadores e migrantes que desapareceram após ataques norte-americanos.

Petro defende a criação de uma comissão de advogados colombianos para investigar possíveis “crimes no Caribe” e proteger famílias de vítimas. Diplomatas da região avaliam que a petição sobre Carranza poderá incentivar outras famílias a levar casos à CIDH, inaugurando uma frente inédita de responsabilização internacional contra Washington.

Enquanto isso, a Casa Branca mantém silêncio sobre a morte de Carranza. O Departamento de Estado afirmou apenas, em março, que os EUA “são fortes apoiadores da CIDH” e que “preservar a autonomia da comissão é um pilar da política de direitos humanos”.

Com tropas, drones e navios de guerra ainda posicionados na região, Trump repetiu que “novos ataques devem ocorrer muito em breve”. A denúncia colombiana se torna, assim, o primeiro movimento institucional capaz de impor limites à escalada militar norte-americana.

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