
“No fim, pensando bem, a vida é uma grande piada. Acontece tudo isso com a gente, e a gente morre… que piada, né? Que piada de mau gosto. Mas acho que temos que encarar isso com uma certa resignação, uma certa bonomia”.
A reflexão de 2017 do mestre da crônica, Luis Fernando Verissimo, ganha agora um eco de despedida. O escritor morreu neste sábado em Porto Alegre, aos 88 anos, encerrando uma trajetória de mais de cinco décadas em que transformou o cotidiano do Brasil em arte, com uma mistura inconfundível de humor, ironia e, sobretudo, sensibilidade.
Internado desde 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, enfrentava sequelas de mal de Parkinson e um AVC sofrido em 2021, além de problemas cardíacos. Ele deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, e três filhos, Pedro, Fernanda e Mariana Verissimo.
Uma carreira por acaso
Até os 30 anos, Verissimo não imaginava que seria escritor ou jornalista. Ele começou a carreira de jornalista na redação do jornal Zero Hora, na década de 1960.
“Eu fiz de tudo, e nada deu certo. Aí quando eu comecei a trabalhar em jornal, e naquela época não precisava de diploma de jornalista, foi quando eu descobri a minha vocação. Sempre li muito, mas nunca tinha escrito nada. Então, eu sou um caso meio atípico”, contou em entrevista à TV Brasil, em 2017.
Filho do escritor Érico Verissimo, ele cresceu cercado de livros. “Houve uma influência indireta. O fato de eu viver numa casa em que existia livro… ser filho de escritor, de certa maneira me influenciou indiretamente, mas eu nunca tive ideia de ser escritor e muito menos jornalista. Quando cronista principal do jornal saiu, me pediram para substituí-lo, e foi uma coisa meio acidental. Não tinha a menor intenção de escrever ou de ser jornalista“, disse à TV Brasil.
Nos jornais, Verissimo deu forma a personagens que entraram para o imaginário nacional, como a Velhinha de Taubaté, fiel defensora de governos desacreditados, e o Analista de Bagé, sátira aguda da psicanálise com sotaque gaúcho.
Nos mais de 80 títulos, transitou com fôlego pelo conto e pelo romance, como em O Clube dos Anjos, As Mentiras que os Homens Contam, Ed Mort e muitos outros. Sempre com ritmo e improviso, que revelavam sua outra paixão: o jazz. Não à toa uma de suas paixões era “soprar saxofone”.
Tanto que, se tivesse que escolher entre sua carreira e a música, “acho que escolheria a música”.
“Escolheria a música”
“Eu tenho uma fantasia de ser conhecido e viver apenas da música. Se eu pudesse escolher hoje entre escrever ou ser músico profissional, acho que escolheria a música. Gostaria de ser lembrado pelo que eu fiz, pela minha obra, se é que posso chamar de obra, mas pelos meus livros. E, talvez, pelo solo de um saxofone, um blues de saxofone bem acabado”.
Mesmo diante das adversidades da saúde, Verissimo mantinha sua lucidez e sua visão filosófica. “Quando temos um episódio assim, damos conta da própria fragilidade. A vida é precária, mas o que se fazer? No fim, tudo se consome hoje e amanhã já se esqueceu. É tudo muito transitório, principalmente por essa nova linguagem eletrônica”, concluiu, em entrevista à TV Brasil.
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