Judas já não beija

Por Jordan Michel-Muniz

Golpistas cobrem-se com o “lábaro estrelado”.

Assim se camuflam vendilhões da “pátria amada”.

Vestem o “verde-louro desta flâmula” e gritam nossa bandeira jamais será vermelha.

Preferem a azul, vermelha e branca.

O pai bateu continência ao símbolo ianque.

O filho vil atraiçoa a “mãe gentil”.

O Brasil sofre sanções econômicas ilegais e afrontas à sua soberania porque derrotados nas urnas e no golpe de Estado os Bolsonaro persuadiram Trump a intervir aqui.

Desrespeitaram o povo ao depredar Brasília em 8 de janeiro de 2023.

No assalto à democracia e ao patrimônio público tiveram apoio de militares, herdeiros de torturadores assassinos de 1964.

Levados à Justiça encetam novo golpe para fugir à punição punindo a “brava gente brasileira”.

“Da perfídia astuto ardil”: pediram a Trump que fira nossa independência e penalize membros dos poderes constitucionais.

Fascistas com fascistas se entendem.

Um golpe dentro do golpe, para sustar processos contra golpistas de 2023.

A compreensão política depende de memória histórica.

Na investida contra o STF e o governo buscam convulsionar o país e derrubar Lula, como a grande mídia do capital fez dia e noite jogando o povo contra Dilma Roussef.

“Longe vá, temor servil”: Lula honrou o país afirmando que aqui mandam os “filhos deste solo”, uma meia verdade.

Isto não é manobra isolada do clã fascista no exterior, mas conluio orquestrado sob o “céu da Pátria”.

Como mostram Ugo Mattei e Laura Nader em Pilhagem – Quando o Estado de Direito é Ilegal, nossa independência é mais formal que real, somos subjugados pelo neocolonialismo devido ao servilismo lucrativo das elites locais à dominação externa.

No golpe atual negociam-se a impunidade e o retorno ao poder dos interesses econômicos que sustentam o bolsonarismo, em troca da pilhagem de recursos naturais e financeiros.

Era o que queriam ao grampear telefones da Presidência e da Petrobras no governo Dilma, e ganharam com Temer e Bolsonaro, que venderam nosso petróleo e refinarias a preço reles.

“Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?”, perguntou Paulo Russo.

Algo similar ocorre com Milei na Argentina, presidente não por seu talento histriônico, mas por abjetos compromissos com o capital interno e externo.

A Argentina ia aderir aos BRICS; com Milei, desistiu.

Antes houve golpe no Peru e tramoia no Equador. A Bolívia, com vastas reservas de lítio, caiu nas mãos da direita pela traição de Luis Arce a Evo Morales.

A constante ameaça à Venezuela deriva do seu petróleo abundante, daí a intimidação bélica e a indecente oferta de 50 milhões de dólares pela cabeça de Nicolas Maduro.

O assédio a nações próximas aos BRICS mira nos negócios chineses por estas bandas.

Os EUA retomam com ameaças a Doutrina Monroe, vendo como seu quintal países do México para baixo.

Repito: a compreensão política depende de memória histórica.

Como fez antes na farsa do juiz sectário de Curitiba, o clã golpista volta a lesar a economia brasileira, fomentando a ruína para obter vantagens eleitorais.

Recordem a perseguição a Lula e ao PT, difundida à exaustão na tevê que premiou o juiz faccioso como personalidade do ano – homenagem do ‘jornalixo’ ao lixo judicial.

O golpismo migrou, o lixo jurídico e a desinformação agora vêm de fora.

Até o PIX é vituperado, por nos livrar dos cartões de crédito extorsivos.

Os EUA não têm direito a interferir nas instituições brasileiras.

Na antiga Atenas um estrangeiro que entrasse na assembleia do povo era condenado à morte.

A agressão ianque à nossa soberania apela a deturpações factuais.

“Houve mão mais poderosa”: o governo agiu para sanar danos provenientes do bolsonarismo, cuja traição ao país poderia levar à perda de centenas de milhares de empregos e causar rombo nas contas do comércio exterior.

Bolsonaristas estúpidos (pleonasmo) aplaudem o filho Zero 3 do clã, que representa o fascismo brasileiro nos EUA.

Sua ausência permanente do Congresso desmerece o mandato que recebeu, porém faz jus aos tontos que o elegeram.

A estupidez jamais anda só. Governador aliado ao clã fascista foi pedir penico na embaixada dos EUA, rebaixando o “impávido colosso”.

Na submissa intromissão em tema fora da sua alçada quis posar de salvador da pátria, visando cambalacho eleitoral.

Nesta disputa para ser o mais torpe também há rachas, pois outro governador disse estar de “saco cheio” porque o filho Zero 2 “fala pela boca o que devia (sic) sair por outro lugar”!

Apesar dos infames interesses políticos esta trupe de canastrões ainda tem seguidores e força no Congresso Nacional, onde pregam a anistia dos seus crimes.

“Não temais ímpias falanges, que apresentam face hostil”.

Insistir no perdão à golpistas é novo golpe, equivale a um poder constitucional intervir em outro, coagindo o Legislativo a anular com lei sob medida condenação no Judiciário.

Neste caso a lei não teria generalidade e premiaria criminosos do pior tipo – os que desacatam a vontade popular.

Após o golpe com Trump contra a soberania nacional, uma gangue parlamentar usurpou a Presidência da
Câmara Federal, repetindo o golpismo do ataque a Brasília que é julgado no STF.

Foi o golpe dentro do golpe dentro do golpe.

Tem-se um golpismo fractal para ficar acima das leis, assunto para outro texto.

Importa aqui é que fizeram o Congresso de casa da sogra.

Sem sua cadeira, tal presidente exibiu debilidade.

Para retomar o cargo não puniu o atentado contra o Poder Legislativo.

Pior, gratificou o delito pautando a PEC da Blindagem, que protege delinquentes com mandato parlamentar da ação do Judiciário.

Ele disse atender ao “espírito da casa”, antes, da sogra, agora, de tolerância.

Dane-se o espírito das leis exposto por Montesquieu, quanto à importância da separação dos poderes para evitar abusos.

Apequenado, o presidente da Câmara caiu refém da anistia ao banditismo antidemocrático.

Defendem imunidade querendo impunidade.

“Ninguém respeita a Constituição,
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?”, cantava Paulo Russo.

Por condenarem resultados das votações nenhum golpista deveria ter posse em cargo eletivo.

Coerência e bolsonarismo são antípodas: a urna eletrônica era boa quando ganharam.

Mas só venceram a eleição presidencial pelas falcatruas judiciais em Curitiba e Porto Alegre, que prenderam injustamente Lula.

Golpistas devem ter direitos políticos cassados, por rejeitarem a democracia.

Militares que os auxiliaram devem ser expulsos com desonra e sem aposentadoria.
Juízes e procuradores, idem.

“Zombou deles o Brasil”, pelas urnas, porém contra o fascismo nunca se baixa a guarda.

Os ovos da serpente são sempre repostos, visando muito mais que 30 moedas.

Judas já não beija.

Agora ele aponta lambendo as botas de Trump.

P.S.: Trechos com aspas sem autor são do Hino Nacional ou do Hino à Independência brasileiros.

Jordan Michel-Muniz é ativista social, mestre e doutor em filosofia pela UFSC, e pesquisa temas ligados à geopolítica, democracia e injustiças.

Este texto não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Last Update: 29/08/2025