
O coração musical do Vai-Vai: Cinquenta anos da Ala de Compositores
por Daniel Costa
Já era madrugada
Na avenida o apito ecoou
E toda a rapaziada, na passarela pisou
Trazendo um sorriso de alegria
Ao entoar a melodia
Num rito de euforia e emoção
Samba cabrocha de pé no chão
Ala de compositores, baianas e passistas
Exaltando a Bela Vista
Hino da Ala de Compositores do Vai-Vai
(Fernando Penteado, Elisbão, Macalé do Cavaco, Rubens Leitão e Tadeu da Mazzei)
Ala de compositores um espaço de formulação e sociabilidade que busca resistir
A ala de compositores de uma escola de samba, assim como a velha guarda, a bateria e a ala das baianas, pode ser considerada uma das vigas-mestras de qualquer agremiação. Reunindo músicos e letristas, é o setor responsável por criar as melodias e letras que, sustentadas pela cadência da bateria, conduzem a narrativa e a emoção do desfile na avenida. Mais do que um espaço de criação, a ala de compositores desempenha papel decisivo na preservação e renovação do samba, mantendo viva a tradição enquanto abre caminhos para novas expressões e experimentações, uma relação dialética entre tradição e modernidade.
Esse espaço também se caracteriza pela convivência e pela troca de saberes entre diferentes gerações, favorecendo parcerias que fortalecem o repertório e a identidade, tanto dos compositores quanto da própria escola. Ao longo de sua trajetória, muitas dessas alas vêm se afirmando como núcleos de resistência cultural, preservando e reafirmando as raízes do samba e, em muitos casos, enfrentando de forma quase quixotesca as pressões impostas pelo mercado e pelas próprias direções das agremiações.
Por décadas, a ala de compositores foi um dos núcleos pulsantes das escolas de samba, reunindo-se regularmente em concursos de samba de terreiro, festas e animadas até mesmo por rivalidades amistosas e permeadas por uma intensa vida comunitária. Hoje, em boa parte das escolas, essa estrutura praticamente desapareceu. Os compositores se encontram quase exclusivamente nas disputas de samba-enredo e nos ensaios próximos ao carnaval, enquanto momentos de sociabilidade ao longo do ano, como feijoadas e demais confraternizações, tornaram-se momentos cada vez mais raros.
Segundo a escritora e pesquisadora Rachel Valença, esse declínio está diretamente relacionado à ascensão dos chamados escritórios de samba e à crescente prática das encomendas externas. Muitas escolas passaram a recorrer a compositores de fora de suas comunidades ou a grupos que atendem diversas agremiações simultaneamente. Com isso, o samba-enredo deixa de refletir o cotidiano da escola e passa a seguir fórmulas repetidas. Essa lógica de imediato enfraquece o sentimento de pertencimento, diluindo a relação histórica entre o compositor e a agremiação, e relegando a ala de compositores, em muitas escolas, a um papel cada vez mais simbólico, passando de protagonistas a quase figurantes.

A Ala de Compositores do Vai-Vai
No caso da Ala de Compositores do Vai-Vai, essa dimensão ganha uma densidade singular. Desde suas origens no Bixiga, bairro marcado por camadas sobrepostas de migrações, tensões sociais e intensas manifestações culturais, a Ala de Compositores não se limita à função técnica de criar sambas-enredo: constitui um núcleo simbólico carregado de significados, território de pertencimento e, por vezes, de disputa. Sua história se entrelaça à própria trajetória da escola e remonta até mesmo à sua época de cordão, nascida a partir de grupos negros que, ainda nas primeiras décadas do século XX, encontravam no samba uma forma de afirmação identitária, de solidariedade comunitária e de enfrentamento ao racismo. No bairro do Bixiga, espaço de convivência de negros, italianos e, com o passar dos anos, de migrantes nordestinos, a Ala de Compositores emergiu na década de 1970 como guardiã de memórias e como laboratório de criação, onde a vivência coletiva se transformava em verso e melodia.
Rememorar a trajetória do Vai-Vai, ainda em sua época de cordão, revela a centralidade de seus compositores na afirmação da agremiação no cenário do samba paulistano. Desde os primeiros tempos, figuras como Tino, Guariba, Henricão e, mais tarde, Zé Di, Geraldo Filme e Osvaldinho da Cuíca consolidaram um repertório próprio que fortalecia a identidade da alvinegra do Bixiga e assegurava sua projeção nas ruas. Esse som nascia da vivência coletiva, com o compasso dos instrumentos de couro, gerando sonoridades únicas e expressivas, marca que permanece até hoje em sua bateria. A batucada sob o comando de Pato N’Água e a ascensão de sambistas reconhecidos mostram que, muito além de seu caráter festivo, o cordão era um espaço de formação cultural, artística e de visibilidade para seus membros.
Contudo, a transição de cordão para escola de samba exigiu profundas mudanças estruturais, nem sempre assimiladas com facilidade por seus integrantes. O surgimento dos enredos temáticos oficiais a partir de 1968 impôs a necessidade de adaptação a um modelo mais normativo e institucionalizado, o que implicava em pesquisa histórica, escolha de temas “nacionais” e a consequente harmonização entre alas, bateria e samba-enredo. Para uma agremiação nascida do “improviso criativo”, como o Vai-Vai, essa transição não foi simples. A substituição de elementos tradicionais do cordão, como a “corte” e os balizas, pelas figuras do mestre-sala e porta-bandeira, além da introdução de alas organizadas, alterou significativamente a estética e a dinâmica do desfile. A dificuldade de integrar todos os setores da escola em torno de um enredo coerente evidenciava a tensão entre tradição e modernização.
O carnaval de 1971, último ano em que a agremiação desfilou com seu estandarte de cordão, marcou um momento de transição ao apresentar um enredo que exaltava a identidade nacional de forma ufanista e apolítica, refletindo o contexto da ditadura civil-militar vigente. A letra do samba mesclava elementos do folclore, da história e da cultura popular, sem qualquer crítica ou menção aos conflitos sociais e políticos em curso, projetando uma visão idílica do país. Essa abordagem, embora premiada na avenida, evidencia como o carnaval também pode funcionar como instrumento de legitimação do poder, ainda que por meio da galhofa e da sátira. A saída de Sebastião Amaral (Pé Rachado) da presidência da escola, motivada por disputas internas e pela lógica da “renovação”, mostra como as transformações institucionais muitas vezes empurraram para a margem figuras históricas e representativas da velha guarda.
O que poderia ter sido mais um momento de dificuldade na trajetória da alvinegra acabou servindo como impulso para reafirmar a força da comunidade, fortalecida pela orientação de sambistas como Osvaldinho da Cuíca. Na bateria, o comando passou para o mestre Feijoada, que assumiu o apito trazendo ritmistas já experientes na cadência das escolas de samba, distinta da dos antigos cordões. Entre eles estava um ritmista vindo da Lavapés, que mais tarde se consagraria à frente da PDM como Mestre Tadeu.
Fundada oficialmente em 1975, ao longo do tempo, a Ala de Compositores tornou-se também uma arena de disputas estéticas e políticas: de um lado, a necessidade de manter viva a herança musical, vinculada às tradições orais e à cadência própria do samba paulista, que é característica marcante do Vai-Vai; de outro, a pressão por se adaptar a novas exigências técnicas e ao espetáculo televisivo, que transformava a cada ano o carnaval em produto comercial. Nesse contexto, a Ala de Compositores do Vai-Vai manteve-se como um espaço de negociação entre tradição e inovação, articulando diferentes gerações de sambistas e incorporando novas linguagens sem perder o vínculo com suas raízes. Seus sambas-enredo, muitas vezes marcados por narrativas que exaltam a história negra, as lutas sociais e a cultura popular, funcionam como crônicas que refletem tanto o orgulho coletivo quanto as tensões vividas pela comunidade e boa parte da sociedade.
Vejamos o que diz o compositor e instrumentista Osvaldinho da Cuíca acerca da fundação da ala. Seu relato revela o papel central que desempenhou na organização e no fortalecimento da Ala de Compositores do Vai-Vai. Ao chegar à escola, Osvaldinho envolveu-se profundamente em seu cotidiano, iniciando os ensaios ainda no Jaçanã com a ala da Dona Paula, figura de destaque no trabalho social e cultural ligado à agremiação. Nesse contexto, inovou na formação instrumental, introduzindo o uso de frigideiras, reorganizando setores como o de cuiqueiros e acrescentando instrumentos de harmonia. Também foi responsável pela criação de um regulamento para a ala de compositores, que estabelecia critérios de ingresso e um período de estágio, garantindo o comprometimento com o pavilhão e a qualidade artística. A ala, batizada em cerimônia conduzida pelo radialista Evaristo de Carvalho, rapidamente ganhou prestígio no carnaval paulistano.
O fortalecimento da nascente ala logo mostrou resultados expressivos: em 1978, o Vai-Vai quebrou uma sequência de quatro títulos do Camisa Verde e Branco com um enredo sobre Noel Rosa e samba-enredo assinado por Osvaldinho em parceria com Lírio, superando na disputa nomes consagrados do samba como Geraldo Filme, Edson, Aloísio e outros. Antes disso, ele já havia conquistado o samba-enredo de 1975, em parceria com o percussionista maranhense Papete. O relato trazido por Osvaldinho evidencia uma ala de compositores vibrante, criativa e profundamente articulada com o conjunto da escola, desempenhando papel decisivo na conquista de títulos e na consolidação da identidade musical do Vai-Vai[1].
Como já mencionado, o espaço das alas de compositores, apesar do caráter comunitário e agregador, também é marcado por disputas. Quando observamos a questão do acesso das mulheres a esse ambiente, percebemos que ele ainda se dá por meio de muitas batalhas, pois a ala de compositores é majoritariamente masculina e pode ser vista como uma trincheira simbólica, onde elas precisam provar duas vezes sua competência para fazer parte. Ainda hoje, a representatividade feminina nas diversas alas é baixa, e muitas compositoras enfrentam barreiras sutis ou explícitas para acessá-la. Na Ala de Compositores do Vai-Vai, esse cenário começou a mudar na década de 1980, com a entrada de Elizeth Rosa, Sahra Brandão e Vânia Zito. A presença desse trio representou, especificamente na ala alvinegra, uma ruptura com essa lógica, abrindo caminho para outras compositoras e consolidando uma participação feminina não meramente decorativa, mas reafirmando que o samba também tem voz e autoria de mulheres.
Assim, mais do que um espaço dedicado à produção musical, a Ala de Compositores do Vai-Vai é expressão de identidade, resistência e pertencimento; profundamente ligada às experiências do bairro do Bixiga, à memória e à trajetória da população negra urbana de São Paulo, mantendo o samba como pulsação vital e como voz ativa enquanto instrumento de afirmação cultural.
Geraldo Filme faz o samba amanhecer no Bixiga
Em 1976, mesmo ainda vinculado ao Paulistano da Glória, Geraldo Filme teve papel fundamental na história do Vai-Vai ao vencer a disputa de enredo com o samba “Solano Trindade: O moleque do Recife”, inspirado na sugestão de Raquel Trindade. A composição rendeu à agremiação o vice-campeonato do carnaval paulistano, sendo reconhecida como o melhor samba do ano. Contudo, sua entrada na ala de compositores da escola não foi isenta de tensões. Embora frequentasse o bairro e fosse amigo próximo do então presidente Chiclé, Geraldo enfrentou resistências internas por conta de sua origem na Barra Funda, bairro que mantinha rivalidade histórica com o Bixiga desde os primórdios dos cordões. Segundo o próprio Geraldo, “houve má vontade da escola em receber seu enredo pelo fato de ser o Geraldão da Barra Funda”.
Fernando Penteado, membro atuante da ala de compositores na época e um de seus fundadores, relembra com humor o episódio que antecedeu a aceitação de Geraldo. Ele conta que o compositor foi convidado a apresentar primeiro um samba de quadra antes de concorrer com um samba-enredo. “A gente até brincou com ele na época que pra fazer samba no Vai-Vai tinha que fazer um samba de quadra, não podia já chegar fazendo samba-enredo. No samba de quadra, a gente analisava a caneta do sambista”, relembra Penteado. O samba apresentado por Geraldo nesse contexto foi “Tradição”, que rapidamente conquistou os frequentadores do bar em frente à antiga quadra, tornando-se um hino informal do Vai-Vai e marcando seu reconhecimento dentro da escola[2].
Já Osvaldinho da Cuíca, responsável pela criação do regulamento da Ala de Compositores do Vai-Vai em 1975, foi mais rigoroso quanto à participação de Geraldo. Segundo ele, o regulamento previa um “estágio” de dois anos na ala, sem direito a concorrer, para que se avaliasse a frequência e o comprometimento do compositor com a escola. “Copiei o regulamento do Rio”, explica Osvaldinho, “e aí que entrou o Geraldo Filme na parada”. Apesar da regra, Osvaldinho admite que, diante do prestígio de Geraldo, usou uma brecha para permitir sua participação. “Peguei um gancho no regulamento, que a escola dele tinha caído… mas no fim ele acabou não deixando a escola dele cair, era malandro”[3].
Mesmo assim, a disputa naquele ano foi acirrada. Osvaldinho relembra que os compositores da escola reclamaram da participação de Geraldo, temendo que ele ganhasse justamente por já ter o nome consagrado no universo do carnaval e do samba. No final, a composição de Geraldo empatou com o próprio samba de Osvaldinho. “O valor do Geraldo era tão grande que o samba dele ganhou do meu, e o meu era bem melhor que o dele”, afirma Osvaldinho, sem esconder o tom irônico e amistoso. O desempate ocorreu em meio à polêmica, já que Geraldo teria levado a torcida do Paulistano da Glória para a quadra do Vai-Vai, o que era proibido na época. “Ele foi esperto, o bobo fui eu”, reconhece Osvaldinho, que ainda assim deu a mão ao colega e gravou o samba vitorioso.
O episódio sintetiza o embate entre tradição e renovação dentro do Vai-Vai, além de evidenciar a complexidade das relações de pertencimento em uma escola marcada por forte identidade comunitária. A resistência inicial ao nome de Geraldo deu lugar ao reconhecimento incontestável de seu talento, fruto de uma trajetória que cruzava bairros e fronteiras simbólicas do samba paulistano. Com o apoio de figuras como Fernando Penteado e, em certa medida, do próprio Osvaldinho da Cuíca, Geraldo Filme conquistou seu lugar no Vai-Vai não somente pela “caneta afiada”, mas também pela inteligência política e pelo respeito que soube construir nos bastidores e nas rodas de samba.
Os históricos sambas da alvinegra do Bixiga
Ao longo de sua história, o Vai-Vai construiu um rico acervo de sambas-enredo que leva ao público, ao mesmo tempo, a identidade da escola e a pluralidade cultural do Brasil. Desde “Aleijadinho” (1969), composto por Carioca, passando por “Independência ou Morte” (1971) e “Passeando pelo Brasil o samba mostra o que é seu” (1972), ambos de Zé Di, percebe-se já nos primeiros desfiles como escola de samba a vocação para unir memória nacional e valorização da cultura popular. Na segunda metade dos anos 1970, a escola passa a dedicar enredos a figuras de relevância cultural, como “Solano Trindade, o Menino do Recife” (1976), de Geraldo Filme, e “José Maurício, Músico do Brasil Colonial” (1977), de Odair Fala Macio, evidenciando sensibilidade histórica e reconhecimento da contribuição negra às artes brasileiras.
Nos anos 1980, o Vai-Vai seguiu sua trilha de sucessos na avenida, combinando irreverência e compromisso com a identidade negra. “Orun Aiyê–O Eterno Amanhecer” (1982), de Osvaldinho da Cuíca e Serginho, dialoga com a cosmologia afro-brasileira, enquanto “Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira” (1988), de Osvaldinho da Cuíca, Namur e Macalé do Cavaco, homenageia Jorge Amado e o imaginário baiano. Houve também momentos de crítica social e teatralidade, como “Escreveu não leu, o palco é meu” (1989), dos mesmos compositores, e o celebrativo “60 Anos no Reino das Bananas” (1990), de Ademir, Neck’s e Showxão, que reafirmou a trajetória da agremiação.
Durante os anos 1990, a escola intensificou a abordagem de temas ligados à história, à arte e à cultura negra. “O Negro em Forma de Arte” (1991), de Mariano, Showxão, Afonsinho e Sorriso, e “Liberdade ainda que Vai-Vai” (1997), de Vilma Corrêa e Washington da Mangueira, reforçaram o discurso de afirmação. “Banzai! Vai-Vai” (1998), de Afonsinho, Zé Carlinhos e Zeca do Cavaco, expandiu o olhar para o Japão, enquanto “Deu poesia na terra da garoa” (1995), de Wagner Santos, Edson Silva e Amauri, exaltou a cidade de São Paulo.
No início dos anos 2000, a agremiação manteve essa amplitude temática. “Quer conhecer São Paulo? Vem pro Bixiga para ver…” (2004), de Zeca do Cavaco, Zé Carlinhos e Naio Denay, reafirmou o vínculo territorial da agremiação com o bairro de sua fundação, enquanto “Eu também sou imortal” (2005), de Danilo Alves, Estevam, Marquito, Wagner Almeida, Mineiro, Régis, Frá e Japolé, revisitou um símbolo da imortalidade do samba. “São Vicente, aqui começou o Brasil” (2006), de Zé Carlinhos, Naio Denay, Benson, Wagner Almeida, Marcinho Z.S. e Loirinho do Cavaco, retomou momentos fundadores da história nacional.
Entre 2010 e 2015, a escola volta a explorar homenagens a personalidades da música e da arte, como “A Música Venceu” (2011), de Zeca do Cavaco, Afonsinho BV, Fábio Henrique e Ronaldinho FDQ, e perfis biográficos marcantes, como “Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo” (2015), de Zeca do Cavaco, Zé Carlinhos e Ronaldinho FDQ. Nos últimos anos, a Ala de Compositores demonstrou ainda vitalidade ao dialogar com espiritualidade e cultura afro-brasileira, como em “No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu… Menininha, mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil” (2017), de Edegar Cirillo, Marcelo Casa Nossa, André Ricardo, Dema, Leonardo Rocha e Rodolfo Minuetto. “Vai-Vai: o Quilombo do Futuro” (2019), do mesmo núcleo de compositores com a adição de Gui Cruz, projetou a herança quilombola para perspectivas contemporâneas; “Sankofa” (2022), de Xande de Pilares, Peu, Claudio Russo, Junior Gigante, Jairo Limozini e Bruno Giannelli, evocou o conceito africano de resgatar o passado para construir o futuro; e “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano” (2024), assinado por Danni Almeida, Vagner Almeida, Marcinho Z.Sul, Clayton Dias, Luciano Bicudo, Claiton Asca, Rodrigo Atração, Edson Liz, Anderson Bueno, Bira Moreno, Mario Lúcio, Leandro Martins e Reinaldo Papum, reafirmou a conexão da escola com a cultura urbana de São Paulo.
Em 2025, o Vai‑Vai celebrou um retorno às suas raízes, estreitando os laços com a comunidade da Bela Vista com o enredo “O Xamã Devorado y A Deglutição Bacante de Quem Ousou Sonhar Desordem”, uma homenagem ao dramaturgo José Celso Martinez Corrêa. A escolha ocorreu em uma final de samba-enredo realizada na Rua Rui Barbosa, no Bixiga, onde a comunidade vibrou com a vitória da parceria formada por Naio Denay e Francis Gabriel, que apresentou um refrão de grande força e fácil assimilação, reverberando o espírito popular da agremiação. O momento marcou a reafirmação simbólica da “Escola do Povo” e reforçou a ligação entre a criação artística da ala de compositores e a vivência cotidiana do bairro. Já para o carnaval de 2026, a escola levará à avenida o enredo “Em cartaz: a saga vencedora de um povo heroico no apogeu da vedete da Pauliceia”, concebido por uma comissão de carnaval, a proposta revisita a trajetória da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, articulando referências à industrialização paulista, à imigração e à luta de classes, sempre a partir de personagens trabalhadores e migrantes que ajudaram a moldar a identidade cultural de São Paulo. A escolha reafirma o interesse do Vai‑Vai em unir memória histórica e discurso social, preservando a potência criativa e a relevância cultural de sua ala de compositores.
Ao percorrer mais de meio século de enredos, observa-se que a Ala de Compositores do Vai-Vai não apenas cria sambas para o desfile; mas constrói um arquivo vivo de memória, política e arte, reafirmando o papel da escola como guardiã da cultura negra, da identidade paulistana e das tradições do samba.
Os próximos cinquenta anos…
Reinaldo da Silva Soares, em sua dissertação de mestrado intitulada O cotidiano de uma escola de samba paulistana: o caso do Vai-Vai, apresenta a Ala de Compositores como um espaço simbólico fundamental, um dos lugares onde o pertencimento à escola se constrói de maneira mais intensa. Compor um samba-enredo para o Vai-Vai, de acordo com Reinaldo, significa, em termos simbólicos, inscrever-se na história da agremiação, ser reconhecido como parte legítima de uma linhagem de sambistas que fizeram do enredo uma narrativa da comunidade, e não somente um espetáculo carnavalesco. É assim, um gesto de afirmação coletiva e de inserção em uma memória histórica que se atualiza a cada carnaval.
Essa memória, porém, não deixa de ser tensionada por transformações mais amplas nas dinâmicas do samba paulistano. Como aponta Soares, a entrada crescente de compositores “de fora”, muitas vezes com infraestrutura técnica e profissionalização mais desenvolvida, acaba gerando conflitos dentro da escola. Compositores históricos, membros da Ala, passam com razão a se sentir deslocados e desrespeitados, vendo seus sambas preteridos em nome de propostas esteticamente polidas, porém menos enraizadas na vivência da escola.
Esses sentimentos de perda e crítica são vocalizados pungentemente também por Osvaldinho da Cuíca, que rememora a centralidade que os compositores ocupavam nas décadas passadas dentro das agremiações: “O compositor era a maior figura da escola de samba, hoje não é mais nada.” Sua crítica é dirigida não apenas ao processo técnico de escolha dos sambas, mas à transformação estrutural das escolas em empresas, com interesses cada vez mais afastados das comunidades de origem. Para Osvaldinho, a Ala de Compositores não é apenas um coletivo criativo, mas um território de memória e de aprendizado comunitário. Ele rememora um tempo em que os sambistas aprendiam a compor juntos, em rodas informais, onde o respeito se construía na partilha da experiência, transmitida de boca em boca, mas que hoje dá lugar à lógica da competição, do desempenho e da espetacularização.
O historiador Bruno Baronetti por sua vez, aponta, com base no depoimento de Osvaldinho, que o samba-enredo sempre teve papel crucial no sentimento de identificação entre sambista e escola. A música, mais do que um suporte do desfile, é o elo que vincula passado, presente e futuro da agremiação, articulando afetos e memórias. Nesse sentido, a desvalorização de algumas alas representa também um enfraquecimento das conexões comunitárias que sustentam a própria ideia de escola de samba.
Ainda assim, como destaca Soares, a Ala de Compositores segue sendo lembrada e reverenciada. Mesmo que seu protagonismo tenha diminuído frente às mudanças estruturais do carnaval, ela permanece como símbolo de prestígio e de pertencimento para muitos sambistas. Os antigos compositores ainda são referências vivas e seus sambas fazem parte do patrimônio imaterial do Vai-Vai.
Esse duplo olhar, um mais sociológico, outro mais memorialístico, revela que as alas de compositores ainda hoje são um espaço em disputa. Disputa entre tradição e inovação, entre comunidade e mercado, entre memória e espetáculo. Sua história é também a história das tensões que atravessam o carnaval contemporâneo e a própria ideia de “escola de samba” como lugar de cultura popular, resistência negra e construção coletiva. Resgatar e valorizar as alas e seus compositores, portanto, não é apenas um gesto nostálgico: é afirmar que o samba não nasce do nada, nem das estruturas corporativas, mas da vivência, da partilha e da coletividade.
Nesse processo de transformações, nem sempre benéficas ao cotidiano das agremiações, a Ala de Compositores do Vai-Vai segue resistindo, demonstrando sua força e vitalidade, seja na tradicional roda realizada antes dos ensaios, seja em apresentações fora da escola, prática hoje cada vez mais rara entre as coirmãs. Ao celebrar seus cinquenta anos, prestamos justa homenagem a todos que, com talento, dedicação e amor ao samba, construíram e continuam a consolidar um dos pilares da alvinegra do Bixiga. Essa trajetória é feita de histórias, memórias e sambas que ecoam não apenas na avenida, mas também na vida de cada integrante e na comunidade que mantém viva a chama do Vai-Vai.
Nomear todos aqueles que constroem e construíram essa ala nas últimas cinco décadas é uma missão quase impossível. Inspirado no portelense Paulinho da Viola, poderia dizer que, se fosse citar todas as “canetas de ouro” que passaram pelo Bixiga, hoje não terminaria. Ao mencionar os compositores abaixo, relembro e homenageio todos aqueles que abrilhantaram, e continuam abrilhantando, o carnaval da nossa alvinegra: Carioca, Zé Di, Théo da Cuíca, Balau, Osvaldinho da Cuíca, Papeti, Odair Fala Macio, Lírio, Almir Guineto, Luverci Ernesto, Osvaldo Arouche, Serginho, Namur, Macalé do Cavaco, Tadeu da Mazzei, Jacó, Mário Sérgio, Penteado, Elisbão do Cavaco, Nadão, Turquinho, Walter Babú, Alemão do Vai-Vai, Marino, Sahra Brandão, Ademir, Mariano, Afonsinho, Naio Denay, Wagner Santos, Carlinhos BV, KZ, Edson Silva, Amauri, Zé Carlinhos, Zeca do Cavaco, Ronaldinho FDQ, Martinello, Marcos Franciscato (Marquito), Vagner Almeida, Nego Alex, Elizete Rosa, Chicão, Mineiro, Edegar Cirillo, Koke, Luciano Bicudo, Japa, Francis Gabriel, Cleiton Asca, Maurício Souza, Rogério, Carlinhos Duvai, Kike Toledo, Tidinho Paixão, Jair de Paula, Angélica, Evair Rabelo, Xavier, Chapinha, Toinho Melodia, Paquera, Elias Gomes, Carlos Cagoba, Mario Sérgio, Vagner Guitão, Edmilson Bola, Dema, Carminha Martinello, Edson Sorriso, Marcelo Nobre, Marcinho Zona Sul, Danni Almeida, Beto Mousinho (Tatuzinho), Eduardo da Mata, Vânia Zito, RC Estevam, Luiz César, Oscar e tantos outros poetas.
Cada nome representa uma parte indispensável desta história. São eles que dão forma e voz ao Vai-Vai, transformando a Ala de Compositores em verdadeira guardiã da identidade e da memória musical da nossa agremiação.
*Daniel Costa é historiador, pesquisador e compositor.
Para saber mais:
ALEXANDRE, Claudia. Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no candomblé do Vai-Vai.
BARONETTI, Bruno Sanches. Transformações na avenida: história das escolas de samba na cidade de São Paulo (1968-1996).
COSTA, Daniel. Samba, raízes e identidade: o Vai-Vai. Disponível em: https://jornalggn.com.br/cultura/samba-raizes-e-identidade-o-vai-vai-por-daniel-costa/
CONTI, Lígia Nassif. A memória do samba na capital do trabalho: os sambistas paulistanos e a construção de uma singularidade para o samba de São Paulo (1968-1991). 2015. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-16062015-130318/pt-br.php
PRADO, Bruna Queiroz. A passagem de Geraldo Filme pelo “samba paulista”: narrativas de palavras e músicas. 2013. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000919385
SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes von. Carnaval em branco e negro: carnaval popular paulistano 1914-1988.
SOARES, Reinaldo da Silva. O cotidiano de uma escola de samba paulistana: o caso do Vai-Vai. 1999. 243 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.
TOLEDO, Luiz Henrique. Geraldo Filme: um sambista na terra do trabalho. 2012. Inédito.
[1] Vejamos a íntegra do depoimento de Osvaldinho prestado ao historiador Bruno Baronetti: “Eu trabalhei como nunca na minha vida dentro do Vai-Vai. Comecei ensaiando no Jaçanã. Lá tinha a maior ala do Vai-Vai, a ala da Dona Paula, uma mãe de Santo, uma negra que fazia um serviço social de maior relevância dentro do samba. Ela tinha um terreiro muito grande na casa dela. Ela pegava os meninos de rua e os abrigava, dava comida, colocava na escola e realmente os educava. Aí eu comecei a ensaiar com aqueles garotos e fiz uma primeira ala de frigideira, com dezessete frigideiras na bateria do Vai-Vai. Já existiam frigideiras individuais. Eu toquei frigideira no Tucuruvi, mas individual. Não existia uma ala de frigideiras fazendo às vezes do tamborim. Organizei os cuiqueiros, já existiam cuiqueiros muito muitos bons como o Caveira, o Maninho e outros velhos no Vai-Vai. Introduzi também instrumentos de harmonia. Eu fiz o regulamento da ala de compositores, como Penteado era um dos mais antigos ele ficou como meu vice, o Lírio que não tinha experiência em escolas de samba mas era um bom técnico, o Galo virou secretário, pessoas que tinham vocação para a função como bons compositores. No regulamento dizia que quem tocasse instrumento de harmonia não precisava fazer estágio. Quem não tocasse fazia um estágio de dois anos na ala para provar que tinha amor pela entidade, pelo pavilhão e também pra gente avaliar a conduta da pessoa e seu trabalho como compositor. E fizemos um trabalho maravilhoso. Trabalhamos muito. Foi a primeira ala batizada com cerimônia em São Paulo. Quem conduziu foi Evaristo de Carvalho. E a partir daí ela ganhou um grande status. Em 1978 quebramos uma sequência de quatro títulos do Camisa Verde e Branco. Como conseguimos ganhar esse título com a minha influência, e o enredo era fantástico Noel Rosa. E eu ganhei o samba-enredo. Disputei com os maiores compositores de São Paulo. Lá tinha Geraldo Filme, Edson e Aloísio, que eu levei para o Vai-Vai. O Talismã disputou comigo, o Zé Di, grande campeão com Salgueiro, tinha a dupla Osvaldo Arouche e Walter Pinho. Antes de Noel eu fiz um samba com o Papete, José Ribamar, grande percussionista maranhense. Levei ele para a ala de compositores do Vai-Vai em 1974, ainda quando estava sendo estruturada. O primeiro samba que eu ganhei no Vai-Vai foi em 1975, parceria minha com o Papete, o carnaval era na avenida São João ainda”.
[2] Vejamos a íntegra do depoimento de Fernando Penteado, dado à pesquisadora Bruna Prado em trabalho sobre Geraldo Filme: “A gente até brincou com ele na época que, pra fazer samba no Vai-Vai, tinha que fazer um samba de quadra, não podia, já chegar fazendo samba-enredo. No samba de quadra, a gente analisava a caneta do sambista. Um dia, eu estava na reunião da ala dos compositores e aí o Alemão chegou pra mim e disse: “Penteado, vai lá na Dona Odete”, o bar que tem em frente ao Vai-Vai, “vai ver o samba que o Geraldo tá cantando”. Aí fui lá, o bar tava cheio, todo mundo cantando! Aí eu cheguei, encostei, ele tava cantando “quem nunca viu o samba amanhecer…” e, quando terminou, ele falou pra mim: “E aí, posso pegar a sinopse?” (do enredo sobre Solano Trindade). E eu respondi: “Não! Nós mandamos você fazer um samba, e não um hino!”. A música foi gravada até pela Beth Carvalho! Aí ele fez o samba pro Solano e a escola ganhou! Nunca eu ia saber que Solano era o nome de um vento africano, pra você ver como era a caneta dele! E ele era muito paulista, e ele dizia: “No Rio eu sou mais um, aqui eu sou o Geraldo!”.
[3] Agora vejamos o depoimento de Osvaldinho da Cuíca, também concedido a Bruna Prado: “Quando ele foi pra Vai-Vai, ele já era da Vai-Vai. Quando ele fez o samba em 76, pra poder entrar na ala, que era regulamento… Eu fiz o regulamento. O regulamento era assim: você tinha que fazer estágio de dois anos na ala dos compositores, sem poder concorrer, pra nós analisarmos a tua fidelidade com a escola, a tua frequência. Copiei o regulamento do Rio, e aí que entrou o Geraldo Filme na parada. Ele já era da escola, pois, embora ele fosse do Paulistano, ele era conselheiro lá, tava sempre com o Chiclé, que era presidente, tava sempre com nóis lá na quadra, e ele queria fazer samba. Aí os compositores reclamaram: ‘pô, ele vai fazer e vai ganhar de nós’, ele tinha nome, né. Aí os caras não queriam, falavam que era contra o regulamento.
Aí eu peguei um gancho no regulamento. A escola dele tinha caído: ‘não, a escola dele não tá no primeiro grupo, caiu’. Mas no fim ele acabou não deixando a escola dele cair. Era malandro. Aí, naquele ano, ele fez ‘O berço das monções‘, em 1976, pra Paulistano da Glória. Não poderia concorrer no Vai-Vai, que era escola do mesmo grupo. O valor do Geraldo era tão grande que o samba dele ganhou do meu, e o meu era bem melhor que o dele.
O enredo foi escolhido em 75, pra 76, e o Geraldo lá, muito malandro: ‘Ô da cuíca, eu queria fazer a homenagem pro velho!’. Eu falei pra ele que era complicado porque ele era presidente do Paulistano, mas eu disse que ia dar um jeito, já que a escola dele tava no sobe e desce. Aí mandei ele fazer um samba de quadra e ele então fez o ‘Vai no Bexiga pra ver’ (Tradição), pra justificar pros caras.
Não deu outra. Na reunião com os compositores, os caras ficaram putos, falaram que era contra o regulamento. E eu disse: ‘mas a escola caiu’. Era eu lutando contra o meu próprio regulamento. E aí foi aquela discussão. Mas o Geraldo tinha nome. Ele empatou comigo no final, mas antes de empatar, a disputa era numa sexta-feira e ele me disse que tinha que ir no terreiro, que não podia faltar. E eu fui e defendi o samba dele, defendi o meu e depois o dele.
Eu tinha uma voz boa e forte, pois eu sempre cantei na avenida, e o samba dele empatou comigo. No desempate, ele trouxe a torcida do Paulistano todinha, e era proibido levar torcida na época. Tivemos que apresentar os sambas duas vezes porque o jurado ficou em dúvida, por causa da torcida, e ele ganhou, na sacanagem. Mas eu achei que era válido, porque na época não podia, mas ele foi esperto. O bobo fui eu. Eu dei a mão pra ele e gravei o samba dele. Era uma amizade muito grande que eu tinha com o Geraldo!”.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “