
Soberania Sitiante: Trump 2.0 e o Populismo Digital
por Jose Luis Bolzan de Morais e Giancarlo Montagner Copelli
A reeleição de Donald Trump, mais do que o retorno do folclórico personagem político, parece representar o aprofundamento de uma lógica de poder marcada pela captura afetiva, desinstitucionalização progressiva e inovações, como a projeção autoritária para além das fronteiras nacionais, impulsionada pela tecnopolítica característica das sociedades digitais contemporâneas.
Já não se trata apenas da política interna dos Estados Unidos, mas da constituição de uma arquitetura global de interferência algorítmica e simbólica que desafia diretamente a soberania de países como o Brasil e mina, por dentro, a estabilidade das instituições democráticas, como se tem visto no episódio da sobretaxação de exportações, cassação de vistos de autoridades públicas e, por último, na imposição da dita Lei Magnitsky ao Min. STF Alexandre de Morais.
A partir da recondução de Trump à Casa Branca, o que se tem observado é uma reconfiguração do poder imperial em moldes pós-modernos: a potência não se exerce mais apenas pela força militar ou diplomática clássica – enfraquecidas pela revolução digital -, mas pela desorganização deliberada do espaço público alheio. Trata-se de uma forma de dominação que atua por dentro das instituições, contaminando-as com dúvidas, narrativas falsas, deslegitimações e rupturas simbólicas.
Como se lesse Jean Bodin de cabeça para baixo, Trump encarna não o soberano que garante a ordem do reino, mas o operador do caos que transforma a exceção em regra e a regra em performance.
A soberania, nesse contexto, não desaparece, claro, mas se modifica, retomando o ciclo de enfraquecimento de umas e reforço de outras.
O que Trump realiza é uma soberania extraterritorializada, que usa as ferramentas da economia da atenção para colonizar afetos, desestruturar instituições e fomentar ressentimento onde antes havia deliberação. No âmbito interno americano do norte, Universidades, como Columbia, tornam-se alvos não por suas posições acadêmicas, mas por sua função simbólica de autonomia. Atacá-las é, muito por isso, atacar o próprio conceito de instituição autônoma – esse núcleo duro do Estado de Direito moderno. No âmbito externo, internacional, opera sob a ilogicidade da política como indústria da desordem, em um vai-e-vem ensurdecedor e instabilizador, desconsiderando tudo aquilo que se (tentou) construir para dar um mínimo de racionalidade às relações internacionais e reforçando a percepção hobbesiana de ser este um ambiente de ausência de autoridade e, portanto, de “guerra permanente”.
Para continuar examinando Trump à luz da boa e velha filosofia política clássica, pensemos no seguinte: se Hobbes via na soberania o remédio contra a guerra de todos contra todos – uma simplificação de seu pensamento -, o trumpismo 2.0 reinventa o Leviatã como espetáculo. É um monstro que não garante a paz, mas que encena o conflito – como o tarifário e institucional, com o Brasil – como forma de engajamento contínuo. A guerra, aqui, é comunicacional, afetiva e simbólica – travada nos feeds, nos reels, nos cortes editados do partido digital – como formulou o CCI/Cebrap – que viralizam indignações seletivas. O Estado, reduzido a palco, torna-se um canal de YouTube, impulsionado pelo modelo de negócio do Vale do Silício (MNVS) e a “silicolonização” do mundo, na expressão de Éric Sadin. O Vale do Silício venceu? Parece.
Esse é o ponto. O populismo digital não é um efeito colateral do trumpismo – ele é sua engrenagem principal. Como já observamos em outros textos, não estamos diante de sujeitos deliberativos, mas de identidades afetivas atomizadas, capturadas por impulsos emocionais e desprovidas de mediações institucionais.
O trumpismo não quer convencer: quer incendiar. E é precisamente por isso que funciona. O algoritmo, como uma espécie de novo conselheiro de Estado, seleciona não o argumento mais sólido, mas o mais polarizador. Trump – ou o trumpismo – compreendeu isso. E as redes sociais se transformam no “diário oficial” da política digital.
E o Brasil? Bom, nossa condição nos põe como laboratório e espelho simultaneamente. A simbiose entre bolsonarismo e trumpismo não é meramente ideológica – ela é técnica. Compartilham métodos, operadores, plataformas, memes e algoritmos.
A soberania nacional é corroída não por tanques ou sanções, mas por hashtags e podcasts. O território atacado é a própria percepção da realidade. E a guerra, como já anunciava Zuboff, é pela colonização da mente conectada.
Assim, é possível entender que a vocação autocrática do novo ciclo trumpista não se revela apenas em seus atos executivos ou discursos inflamados. Ela se inscreve, com sutileza e insistência, no esgarçamento contínuo das instituições. A separação entre poderes, a autonomia das universidades, a estabilidade normativa – inclusive “entre Nações” – tudo isso passa a ser recodificado como “entrave burocrático” ou “inimigo do povo”.
É o que vemos – e é o que faz do Estado de Direito, outrora o bastião da previsibilidade, um simulacro – como muito já se disse, há décadas, dos modelos de bem-estar.
Novos tempos, em que o poder já não precisa se impor pela força: basta modular afetos e filtrar a atenção e ter, no lugar da espada, um smartphone, quando não lança mão de drones militares.
De qualquer sorte é imperioso ao Brasil atuar com altivez e combater, inclusive no campo de jogo do adversário. Esta batalha pode se tornar um exemplo histórico para o futuro das democracias constitucionais.
Jose Luis Bolzan de Morais – Doutor em Direito do Estado, Procurador do Estado do RS aposentado, Advogado, Coordenador Geral Cyber Leviathan – Observatório do Mundo em Rede
Giancarlo Montagner Copelli – Doutor em Direito, Coordenador Executivo Cyber Leviathan – Observatório do Mundo em Rede
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