As motivações da travessia: por que alguém deixaria o desejo autoritário?

por Eliseu Raphael Venturi

Não é simples sair de uma estrutura autoritária. E não me refiro apenas a regimes ou sistemas de governo — refiro-me ao autoritarismo como posição subjetiva. Uma posição que oferece abrigo simbólico à custa da suspensão do desejo, da escuta, da contradição. Uma posição que promete coerência, mas entrega repetição; que vende segurança, mas cobra obediência. O desejo autoritário é, em muitos casos, menos uma perversão política e mais um modo de tamponar o mal-estar da existência.

E então, por que alguém deixaria isso? Por que se mover de uma estrutura que, embora excludente e alienante, oferece ordem, previsibilidade e pertencimento?

Não é por escolha racional. A travessia não começa como decisão — começa como fratura. E são essas rachaduras, esses deslocamentos no gozo, essas falhas no enredo que sustentava o sujeito, que tornam possível — e por vezes inevitável — um reposicionamento.

A primeira dessas falhas é a insolvência do gozo. O sujeito continua repetindo os gestos, os discursos, os rituais autoritários, mas já não encontra neles o alívio prometido. O mal-estar retorna, mas agora sem a compensação simbólica. Obedece-se, sim — mas sem crença. A saturação do gozo transforma a travessia de um gesto heroico em uma consequência: o sujeito já não suporta habitar aquela ficção.

Outro vetor é o encontro com o real — algo irrompe: uma perda, um trauma, uma injustiça explícita, um colapso íntimo. Não se trata de argumento ou persuasão: trata-se de uma experiência que fura o véu simbólico. A blindagem falha, e a crença deixa de sustentar. O que antes era vivido como ordem torna-se peso morto. A estrutura não se desfaz, mas descola.

Em muitos casos, é o impasse simbólico que inicia a travessia. O sujeito percebe que está encenando, que os significantes que sustentava já não o representam. A coerência dá lugar à angústia, e a angústia à possibilidade de dizer não — não a um Outro, mas à repetição que já não serve.

Há também os encontros. Encontros com a alteridade radical — não a alteridade que ameaça, mas a que desorganiza suavemente. Uma escuta, uma fala, uma presença que não se submete nem se impõe. Algo do outro ressoa e abre uma fenda. Não se muda de posição ao ver o inimigo: muda-se quando se é tocado pelo outro em sua diferença legítima.

Outras vezes, é pela experiência estética, analítica ou amorosa. Um poema que desarma, uma análise que desnuda, um silêncio que acolhe, um gesto que desorganiza sem violência. Aquilo que parecia sólido começa a vibrar. Onde só havia crença, surge o desejo. E o desejo não pede permissão — apenas pulsa.

Em alguns, a fratura entre o ideal e o vivido opera como catalisador. A pessoa que acredita defender a moral, a família, a verdade, percebe que sua própria vida não condiz com esses ideais. E o que antes era vivido como esforço ético revela-se performance esvaziada. A rachadura simbólica se instala: não dá mais para fingir.

Às vezes, o começo é quase imperceptível: um silêncio ativo. O sujeito interrompe o circuito. Para de repetir, de justificar, de brigar. E nesse vazio — que não é ausência, mas suspensão — algo novo se insinua. O silêncio torna-se escuta de si. Não é fuga, é freio. E no freio, uma travessia começa.

Há ainda a saturação da performance. O sujeito exaure-se tentando ser o “bom sujeito” do discurso autoritário — seja o cidadão exemplar, o militante coerente, o pai de família, o ateu racional, o progressista puro, o gestor infalível. A identidade sustentada à força torna-se cárcere. A fadiga abre a possibilidade de desistir do ideal. E, com sorte, de si como ideal.

O que une todas essas motivações é a experiência da fratura. Fratura do gozo, do ideal, da repetição, da palavra. A travessia, então, não é iluminada nem gloriosa — é um tropeço, uma queda, uma interrupção. Ela começa onde o sujeito já não pode continuar.

E, no entanto, essa não continuidade é preciosa. Porque o desejo autoritário só subsiste enquanto o sujeito encontra nele um abrigo funcional — ainda que disfuncional. Quando o abrigo rui, emerge o risco: ou a construção de uma nova estrutura autoritária, ou a abertura a uma ética do desejo, da escuta, do comum.

A travessia não é uma salvação. É uma possibilidade. E toda possibilidade carrega, no fundo, um gesto inaugural: não mais recobrir a fratura com o mesmo cimento. Sustentar a rachadura, escutar o vazio, e dali, quem sabe, desejar de outro modo.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.

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Last Update: 29/07/2025