Nesta quinta-feira (24), Jeremy Corbyn e Zarah Sultana, parlamentares independentes ex-membros do Partido Trabalhista do Reino Unido, publicaram declaração conjunta anunciando oficialmente a criação de um novo partido de esquerda.

Na declaração, é anunciado que “é tempo para um novo tipo de partido político. Um que pertence a vocês”. Ela denuncia a política neoliberal do imperialismo, afirmando, dentre outras coisas, que se vê que “o sistema é viciado quando 4,5 milhões de crianças vivem na pobreza nos seis países mais ricos do mundo” e quando “o governo diz que não há dinheiro para os pobres, mas bilhões para a guerra”.

No documento, também é denunciada a cumplicidade do Reino Unido com o genocídio perpetrado por “Israel” contra o povo da Palestina, afirmando que “continuaremos exigindo o fim de toda venda de armas a Israel, e pelo único caminho para a paz: uma Palestina livre e independente”.

O documento denuncia igualmente a demagogia contra imigrantes, afirmando que “os grandes divisores querem que vocês pensem que os problemas em nossa sociedade são causados por imigrantes ou refugiados. Eles não são. Eles são causados por um sistema econômico que protege os interesses de corporações e bilionários. São as pessoas comum que criam a riqueza – e são as pessoas comum que têm o poder de colocá-la de volta onde pertencem”.

A declaração finaliza afirmando que “é hora de um novo tipo de partido político. Um enraizado nas nossas comunidades, sindicatos e movimentos sociais. Um que construa poder em todas as regiões e nações. Um que pertença a vocês”. No portal em que a declaração foi publicada, também foi disponibilizado um local para que as pessoas assinem para a formação do partido, igualmente sendo informado que logo mais será realizada a conferência de fundação do partido.

Nesta sexta-feira (25), Jeremy Corbyn informou em seu perfil no X que 300.000 pessoas já deram sua assinatura para participarem da construção do partido.

Há alguns dias, mais de 2.000 sindicalistas, inclusive 43 atuais e ex-membros dos comitês executivos de sindicatos, assinaram uma petição afirmando que “é hora de o movimento sindical discutir seriamente a fundação de um novo partido anti-austeridade e antiguerra” e “que nosso movimento será enfraquecido se os trabalhadores nos virem como uma voz do Partido Trabalhista pró-austeridade”. Ao mesmo tempo, apelaram “para discussões urgentes dentro do nosso sindicato e entre sindicatos para organizar uma conferência que estabeleça uma voz política para os trabalhadores”, destacando que “o establishment tem quatro partidos – é hora de a classe trabalhadora ter um próprio”.

Na segunda-feira (21), Dave Nellist, membro do Partido Socialista, ex-deputado trabalhista (1983-1992) e atual presidente da Coalizão Sindicalista e Socialista (TUSC), organizou uma reunião para discutir a luta por um novo partido dos trabalhadores. A reunião contou com a participação de Corbyn, Sultana e mais de mil sindicalistas. 

Conforme informado no portal do Partido Socialista, Dave Nellist afirmou, durante a reunião que “contribuiremos entusiasticamente com o que pudermos para o processo de criação de um novo partido”. Nesse sentido, o agente eleitoral nacional da TUSC, Clive Heemskerk, observou que “estabelecer um novo partido de trabalhadores capaz de reunir sindicatos, manifestantes anti-guerra, ativistas da comunidade da classe trabalhadora, ativistas ambientais, jovens lutando por um futuro e os grupos já existentes de conselheiros independentes é um processo e não algo a ser alcançado em um único ato”, explicando que um dos problemas “é a exigência, prevista nas leis eleitorais britânicas, de registrar um partido na Comissão Eleitoral antes que ele possa aparecer nas cédulas de votação, incluindo as restrições quanto ao nome que o partido poderia assumir caso coincida com partidos já existentes”.

Em razão disto, o comitê diretor do TUSC concordou em entregar o seu registro eleitoral para Corbyn e Sultana, para a formação do novo partido, para permitir que as coisas comecem imediatamente.

A formação deste novo partido de esquerda e o desenvolvimento da situação política no Reino Unido foi comentada por Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO), durante o programa Análise Internacional, do canal do Diário Causa Operária no YouTube. O dirigente avalia que “o partido vai provocar uma um deslocamento de forças muito grande”.

Pimenta avalia que, apesar de não saber o que o novo partido faria se chegasse ao governo britânico, é necessário considerar duas coisas. Uma delas é que a situação “não é um problema de pessoas”, explicando que a adesão de mais de 2.000 sindicalistas mostra que isto “é o movimento operário britânico que é uma força muito poderosa”. O presidente do PCO continua: “nós temos aqui um fenômeno que é maior do que se, por exemplo, a CUT brasileira rompesse com o governo do PT. A CUT é uma organização muito paralisada. Esses sindicatos não. Sindicatos recentemente dirigiram importantes greves na Grã Bretanha. Então, a primeira coisa que a gente tem que entender é isso. Não é um movimento de pessoas, é um movimento de massas”.

Falando sobre o segundo fator a ser considerado, Rui Costa Pimenta explica que “se esse pessoal chegasse ao governo, a crise do imperialismo britânico, independentemente do que eles fariam, seria sim infinitamente maior do que a crise do imperialismo norte-americano com Trump. O Trump que tá causando todo esse estrago dentro do sistema político norte-americano é um direitista. Esse pessoal não, esse pessoal é tudo gente de esquerda, é um pessoal que tá apoiado numa poderosa massa de trabalhadores”.

O presidente do PCO destaca, assim, que isto “é um acontecimento que vai ter muito impacto na vida política mundial. Esse pessoal pode desperdiçar essa oportunidade? Pode, porque se tem uma coisa que a gente já viu de monte, é gente jogando na lata do lixo oportunidades que a história oferece. Mas que isso daqui é uma coisa de uma importância transcendental na política britânica e mundial, eu não tenho a menor dúvida”.

Rui Pimenta também comentou sobre a posição de George Galloway acerca da criação do novo partido. Galloway é líder do Partido dos Trabalhadores da Grã-Bretanha, e notório por sua posição antissionista. Em publicação em sua página do X, ele disse que seria ideal se ele fosse convidado para a conferência de fundação do novo partido, pois é preciso formar uma coalizão de grupos de partido da resistência contra o “unipartido liberal conservador trabalhista”.

Conforme Pimenta, isto quer dizer que “se ele não ingressar no partido, ele vai ingressar em uma frente única. Acho que ele vai propor, pelo menos. Eu acho que essa frente única, a não ser que haja aí a interferência direta da direita dentro do partido, acho que essa será um exemplo para o Brasil”.

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Last Update: 26/07/2025