A divulgação dos dados sobre religião do Censo 2022 pelo IBGE, na última sexta-feira 6, foi objeto de ampla cobertura noticiosa e numerosas postagens em mídias sociais. Um breve estudo sobre as informações, análises e comentários indica que um dos temas mais enfatizados foi o aumento do percentual de evangélicos, em algumas abordagens vinculado ao declínio do número de católicos e, em outras, com destaque para uma desaceleração do crescimento.

Para oferecermos comentários responsáveis sobre isto, é preciso recuperar que os dados resultam de uma questão aberta: “Qual é a sua religião ou culto?”, e a lista de respostas foi organizada e classificada em “grandes grupos” (conforme o documento divulgado pelo IBGE) – Católica Apostólica Romana, Evangélicas, Espírita, Umbanda e Candomblé, Outras Religiosidades, Sem Religião. Os números dizem respeito, portanto, a uma primeira classificação da autodeclaração da população nestes grandes grupos religiosos.

Isto significa que qualquer avaliação é ainda prévia e toma por base os dados deste agrupamento geral. Descontados católicos e espíritas, que são classificados como um grupo homogêneo (apesar da diversidade de teologias e práticas que contêm, de difícil mensuração em um levantamento numérico), ainda não temos condições de aprofundar reflexões sobre outros três grupos (a divulgação destes dados ocorrerá posteriormente). Eles têm diversos subgrupos, cada qual certamente mencionado pelos respondentes de diferentes formas. Um estudo sobre os números que detalham como estão compostos estes três grandes grupos, entre eles os evangélicos, certamente nos orientará a outros olhares.

Consideremos, portanto, que o que temos disponível nos instiga a pensar — e é fato — que a atenção voltada a evangélicos na cena pública do Brasil se justifica. Além da destacada atuação na política partidária, o tema mais comentado nos últimos anos, há a configuração do segmento como um eleitorado que tem ativistas políticos, com presença marcante no debate público. A isto se soma a forte visibilidade social, com expressões de cultura na música, na linguagem, no mercado de bens e serviços, nas inúmeras publicações nos espaços digitais e representações em produções culturais como novelas, filmes e peças de teatro, além dos eventos que ocupam casas de espetáculo, estádios, ruas.

A partir deste destaque público, de uma leitura apegada à curva ascendente de crescimento do número de evangélicos, intensa, desde o Censo 2000, e da interpretação da existência de um projeto de “domínio” do segmento, foi criada uma expectativa entre jornalistas, analistas e público interessado no tema sobre o levantamento do Censo 2022. Estimou-se que o percentual deste grupo religioso não só ultrapassaria 30%, como na próxima década seria maior que a quantidade de católicos no País.

Os dados apresentados não correspondem a esta projeção, com números pouco mais moderados: o IBGE registra 26,9% de pessoas que se autoidentificam evangélicas no País. Porém, isto não é pouco: um em cada quatro habitantes professa a fé evangélica. São 5,2 pontos percentuais em 2022 a mais do que os 21,7% registrados em 2010. Além do protagonismo na cena pública, o avanço numérico deste grupo importante mostra um Brasil que segue predominantemente cristão, porém com uma face mais plural, diversa, frente à hegemonia histórica do Catolicismo. Como afirma a equipe de pesquisadores do Instituto de Estudos da Religião, o crescimento evangélico apontado pelo IBGE “é um dado muito relevante, pois quanto mais crescem, mais abrasileirados se tornam. Ou, provavelmente, tenham crescido mais, ao se tornarem mais inculturados à realidade brasileira”.

No entanto, abordagens diversas sobre o tema seguem questionando os motivos da “desaceleração” do avanço evangélico no País. Sem levar em conta as críticas à metodologia do levantamento do IBGE e as teorias da conspiração sobre o suposto “propósito do governo Lula de diminuir o tamanho dos evangélicos”, podemos listar, de forma coerente, com base nos estudos sobre o grupo no Brasil, alguns fatores que explicam este quadro.

Um fator é a fragmentação interna do campo evangélico, caracterizado por um forte denominacionalismo. O amplo número de templos e de comunidades evangélicas é reconhecido, mas vários resultam de divisão, não de multiplicação. São pequenas e médias igrejas criadas a partir de rachas, divisões, instabilidades, incompatibilidades, com fiéis que migram de uma igreja consolidada para uma nova formada a partir dela. Nesta fragmentação está a formação de comunidades alternativas, várias delas articuladas na cultura digital, que representam também novas religiosidades dificilmente medidas pelos números do Censo. Uma questão é que enquanto algumas se consolidam, várias se extinguem.

Outro fator importante é o impacto da intensificação da ocupação das igrejas evangélicas para campanha política, especialmente a partir de 2018. Naquele ano foi estabelecida uma aliança explícita de lideranças pentecostais e de uma parcela das igrejas tradicionais (presbiterianas, batistas, metodistas, entre outras) com o então candidato Jair Bolsonaro (pelo PSL), simbolizada por meio de um batismo no Rio Jordão, em Israel, dois anos antes.

Esta politização com campanhas nos templos e em espaços digitais foi fortalecida para a reeleição de Bolsonaro (pelo PL) em 2022, com uso ostensivo de pânico moral, mentiras e enganos, o que causou incômodo em muitos fiéis. O apoio foi mantido por uma parcela de eleitores evangélicos, mas o processo de radicalização gerou perseguição a membros com preferências políticas divergentes, o que provocou desligamento e esfriamento da relação de muitos com suas comunidades religiosas.

A equipe de pesquisa do ISER identifica, a partir de pesquisas qualitativas e de observação empírica que realiza, indícios de que começa a existir uma espécie de desgaste de um tipo de cristianismo entre os próprios evangélicos.

O resultado do Censo mostra que não basta projetar crescimento linear com base em números. É preciso considerar as construções culturais, dinâmicas internas, divisões e a relação com a política. O Censo de 2022 nos lembra que números são muito importantes, são um retrato, mas não falam sozinhos, pois há um cenário, um contexto. Portanto, ainda há muito a apreender destes significativos números gerais, e é neles que especialistas se debruçam nestes dias, enquanto não há acesso ao detalhamento dos grupos. Ainda há muito o que dizer deste Brasil plural.

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Last Update: 11/06/2025